| LE BUTCHERETTES | “Queremos morder-vos com muita suavidade”

Jonathan Hischke, Teri Gender Bender e Gabe Serbian

Teri Gender Bender, aliás Teresa Suarez segundo o BI, nasceu a 15 de Maio de 1989, em Denver. A meio da adolescência perdeu o pai e mudou-se para o México. Cansou-se de ser reprimida, dedicou-se ao rock e, com o apoio de uma guitarra de quatro cordas, um baixista e um baterista, lançou uma revolta pela emancipação das mulheres. A 19 de Agosto, a banda que criou estreia-se em Portugal. É no Festival de Paredes de Coura. Um concerto que promete ser controverso e marcante. Ao FrankMarquesBlog, ela abre o livro da sua vida e da carreira dos “Carniceiros” (tr.: “Butchers”). Fala de sexo, do primeiro disco, de liberdade, dos Mars Volta e confessa nada saber sobre a economia portuguesa.

Página 2: O disco
Página 3: História pessoal
Página 4: A estreia em Paredes de Coura

Teri gosta de "saborear" o microfone

FrankMarquesBlog – Porquê o nome Le Butcherettes?
Teri Gender Bender – É uma metáfora que saiu da pequenita semente que tinha, aos 17 anos, dentro da minha mente reprimida. Aos 14, mudei-me para a quente e formosa Guadalajara [cidade mexicana] e dei-me conta que realmente não estava feliz pela forma como eram tratadas as mulheres. Le Butcherettes significa, para mim, uma mulher, várias mulheres ou vários homens, quem quer que seja, que cortam e destroem os preconceitos sexistas.

– O projecto nasceu em 2007. Conte-nos a história dos Butcherettes.
– Para mim, os Butcherettes não são uma banda de rock porque as bandas de rock ficam presas a esse título e estão sempre a fazer a mesma coisa. Começámos como uma banda feminista de duas mulheres e conceitos absorvidos a partir de Betty Friedan [escritora americana, activista e feminista, que morreu em 2006 aos 85 anos] e Simone de Beauvoir [escritora francesa, filósofa e feminista, que morreu em 1986 aos 78 anos]. Infelizmente, com tantas propostas ideológicas em prol das mulheres e de tantos ângulos positivos e negativos para tratarmos a sensualidade e a liberdade da mulher, a baterista que tanto gostava e admirava como amiga acabou por ser parte do problema da falta de consciência. Ela saiu da banda e colocou-me um rótulo de “má pessoa” simplesmente por eu querer crescer não só como feminista mas como pessoa. A partir daí continuei com o meu projecto. Em vez de me fechar e seguir com a mesma fórmula, comecei a tratar de olhar o Mundo sem excluir outros movimentos que, de facto, nos levam a corrigir os nossos erros enquanto músicos. No actual “line up” estão agora o Gabe Serbian, na bateria, e o Jonathan Hischke, no baixo. É fascinante poder tocar com músicos de tanto prestígio. Sentimos liberdade para evoluir. Pelo menos por enquanto [risos].

– Usa o nome Teri Gender Bender e disse a certa altura que era para a verem como artista, não pelo género ou pela sua anatomia. Mas nos concertos dá ideia que explora uma imagem muito feminina que casa de forma algo polémica, e ao mesmo tempo bela, com o Garage-rock. É deliberado?
– Eu preocupo-me em não me cingir à ironia dos próprios limites que se colocam sobre o arquétipo da mulher. O contraste que apresento é totalmente deliberado.

Le Butcherettes:“The devil” e “New York”
(3 de Março de 2011, concerto no The Echo, em Los Angeles)

– Costuma usar um avental nos concertos. Vai usá-lo em Portugal?
– Acho que vou deixar de o usar algum dia. Quero evoluir e mudar com os anos. Como sucedeu, por exemplo, com a Bjork, a PJ Harvey, a Kate Bush… todas elas artistas e não rockers. Uso o avental nesta fase da minha vida porque a minha consciência está a tratar de deixar de se sentir com um objecto discriminado. E faz isso com humor. É uma forma de gozar com os preconceitos sobre o meu próprio sexo. Mas há mais coisas dentro de mim que quero explorar.

Teri em palco de avental

– Sei que tem aventais à venda entre o seu “merchandising”?
– É verdade. Foi ideia do Gabe [o baterista]e da Sargent House [a editora] fazer dos aventais uma estratégia de marketing: ter artigos diferentes como imagem de marca. E o melhor é que há mulheres e homens que se identificam com as minhas frustrações e o meu sentido de humor. E compram os aventais. Estou-lhes agradecida.

– Usa sempre o mesmo em palco ou tem vários?
– Já usei quatro no total. Uns deixei-os para cortar com o passado e outros dei-os como recordação. Agora tenho um da Bélgica, que me comprou um bom amigo.

– Qual é o significado?
– O de uma mulher submissa que não pensa em si mesma. Mas o mais irónico é que, ainda que o simbolismo universal torne o avental como algo feminino, também quero usá-lo para lhe mudar esse sentido e torná-lo um símbolo de poder e animalidade.

– Também vende os aventais que usa nos concertos?
– Não. Apenas vendo discos, vinis, outros aventais e t-shirts. O que utilizo nos concertos, por vezes, atiro-o para o público. É o que acontece, por exemplo, com os meus sapatos de salto alto.

– Até parece que a Teri tem algum problema pessoal com limpeza. Ou será apenas contra a ideia de que essa é uma função exclusiva das mulheres?
– Nada disso. Por acaso até sou é obsessiva compulsiva pela limpeza na vida. A questão da limpeza [nos concertos] é uma metáfora da minha vontade de querer, sim, limpar as mentes obstruídas que odeiam sem saber. Ou que amam sem questionar… sem dar atenção ao inconsciente. As pessoas têm de deixar de ter medo e devem perguntar-se porque fazem as coisas que fazem.

O recurso a carne faz parte do passado

– Em tempos chegou a usar sangue, carne e ovos nos concertos. Percebi que isso já acabou. Porque deixou de os usar?
– O ser humano está em constante movimento e cresce sem o reconhecer. Na vida há mudanças e eu procuro passar por etapas sem deixar que essas fases se apoderem de mim.

– Começaram como um duo feminino. Passaram a trio misto porquê?
– Foi a vida que o ditou. Eu fiz a banda. Houve pessoas que quiseram apropriar-se das minhas ideias e das canções. Não o permiti. A vida fez-me seguir em frente. Tudo na vida é possível. Mudanças. Acordos. Avanços. Eu apenas quero viver e ser feliz. Ficar com o que é meu e continuar a alimentá-lo.

– Mudou-se do México para Los Angeles quando passaram a trio. Porquê o regresso aos Estados Unidos?
– Nasci em Denver, no Colorado. Mudei-me para Guadalajara aos 14 anos. Não é que tivesse de mudar de país, mas a vida, mais uma vez, levou-me nesse caminho. As oportunidades aparecem tanto no México como nos Estados Unidos. Tudo está interligado.

Le Butcherettes: “Kiss & kill”
(Tema título do primeiro EP, editado em Março de 2008)

3 respostas a | LE BUTCHERETTES | “Queremos morder-vos com muita suavidade”

  1. JS diz:

    Muito boa entrevista, excelente ideia de dar a conhecer um pouco mais sobre esta fabulosa banda, a quem ainda não conhece.
    Paredes de Coura é também conhecido por trazer bandas que se tornam grandes revelações, esperemos que esta seja apenas o primeiro passo desta banda na estrada do estrelato.

    • Obrigado JS.
      A ideia é exactamente essa. Espero consegui-lo.
      Com estes e todos os outros que tenho entrevistado.
      Não são entrevistas pelas simples entrevistas, mas pela qualidade da música que fazem, dos discos que lançam e da eventual vinda a Portugal.

      Espero voltar a “ler-te” por aqui.

      Cumprimentos,

      Francisco Marques

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