| HELL HOUND | “Gravei o disco todo sentado na cama”

O cão do Inferno é do Blues

Assume-se da Marinha Grande, revela, porém, que já não mora lá. Mas é no cenário fabril e na acomodação de alguns amigos de infância, que este cão do inferno encontra inspiração para recriar ao ritmo lusitano as mais crus melodias do Mississipi. Revela uma admiração desmedida por Robert Johnson, o primeiro sócio do chamado clube dos 27. Roubou-lhe o nome numa canção. Não sonha com estádios ao rubro apenas em fazer músicas cada vez melhores. Dia 19 de Novembro, um sábado à noite, estreia-se no Barreiro de harmónica nos beiços e banjo debaixo do braço. É um dos 7 projetos em palco na primeira edição do Riverside Blues Fest.

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Um festival de Blues em Portugal
Whiskey com moderação

FrankMarques – Quando é que encarnaste o “Cão do Inferno”?
Hell Hound – Não foi repentino. Desde que me lembro que tenho esta espécie de necessidade de tocar Blues. Por volta de 2005 comecei a pensar mais a serio no assunto e dei alguns concertos. Só que a banda que tinha na altura, os The Wage, tinha prioridade e o projecto acabou por ficar em segundo plano. Mais tarde, em 2008, com a banda já numa espécie de licença sabática, fechei-me no quarto, peguei num gravador e gravei o “21st Century Mississippi Blues” [n.: o 1.º disco]. Creio que foi aí que o Hell Hound nasceu verdadeiramente.

– Porquê esse nome?
Lembro-me ter pensado em várias possibilidades, todas ligadas a um imaginário rural norte-americano. Mas Hell Hound, com o peso que tem enquanto homenagem ao melhor “bluesman” de sempre, o Robert Johnson, sempre foi a possibilidade mais forte.

– Fast Eddie, Lightnin’ Johnny, Little Johnny Jewel, Holygators, Hell Hound… há alguma necessidade especial de transcendência pessoal para algo americano quando se faz Blues?
Penso que sim. Não sei se faria grande sentido ter um Tó Zé Silva como “bluesman”. O Blues feito em Portugal exige a criação de personagens que se deem melhor com o imaginário desse género. É claro que, por outro lado, essa transcendência ajuda também a ultrapassar o fato de se ser um puto branco de classe média a fazer Blues.

De unhas afiadas na guitarra

– A inspiração surgiu-te mesmo das margens do Mississipi?
Simbolicamente, sim. Surgiu, pelo menos, a partir dos relatos que nos chegaram através das obras do Robert Johnson, do Son House, do Sonny Boy Williamson, do Charlie Patton, do Skip James…

– É inevitável a tua música criar-nos um cenário mental, que não nos é natural. Em Portugal, qual é o local mais próximo desse cenário para se ouvir o teu Blues?
A minha terra natal. Sem dúvida. Os paralelismos que se podem estabelecer entre a Marinha Grande e o ambiente mais próprio do Blues são enormes. Creio que não há melhor sítio para ouvir a minha música do que numa cidade profundamente deprimida, pós-industrial e falida como a Marinha Grande.

– Onde te refugias na Marinha Grande para dar ambiente à criatividade do Hell Hound?
Apesar de já não viver na Marinha Grande, volto lá frequentemente. As imagens das fábricas abandonadas, das gentes na rua, de pessoas que andaram comigo na escola e que agora vivem presas na rotina de um emprego fabril, arranjando os mais bizarros escapes, são suficientemente fortes para criar, na minha cabeça, esse lugar onde me refugio quando nascem músicas de Hell Hound.

“Eden Blues”, tema extraído de “21st Century Mississipi Blues”
[2010, Experimentáculo]

Um festival de Blues em Portugal
Whiskey com moderação

Uma resposta a | HELL HOUND | “Gravei o disco todo sentado na cama”

  1. tiago ( eclipserecords ) diz:

    foi muitooooo porreiro:) quem foi so teve a ganhar:) parabens tambem pela entrevista:)

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