| NITZER EBB | “Estamos melhor que nunca”

Jason Payne, Bon Harris e Douglas McCarthy. Os Nitzer Ebb em 2011

Douglas John McCarthy tem 44 anos, quatro filhos e há pouco mais de um ano casou numa cerimónia em que o ‘dress code’ era indumentária de funeral. Em termos profissionais, o homem tem uma agenda super-preenchida. É DJ, divide com o francês Terrence Fixmer o projecto Fixmer/McCarthy, que leva dois álbuns editados, e, acima de tudo, é vocalista e fundador dos Nitzer Ebb, banda britânica de música rock electrónica. Formados há quase 30 anos, com forte ligação aos Depeche Mode e um vasto culto ‘underground’, os ‘Ebb’ voltaram aos discos no ano passado, após uma pausa de 15 anos. E, no final de Julho, estreiam-se em Portugal. Dois excelentes motivos para uma conversa com a banda em exclusivo. McCarthy foi o porta-voz.

Página 2: A ligação com os Depeche Mode
Página 3: A estreia em Portugal
Página 4: Ao vivo: o antes e o agora

A capa do álbum de 2010

FrankMarques – Um ano depois da edição de “Industrial complex”, o último álbum, como se sentem neste regresso ao activo?
Douglas McCarthy – Sentimo-nos muito bem. Já fizemos mais de 100 concertos a promover o álbum e tem sido um prazer. Os nossos fãs, os novos e os antigos, receberam bem o nosso novo trabalho e todo ele encaixa muito bem com aquilo que agora são os clássicos dos primeiros discos dos ‘Ebb’.

– Vocês têm tocado um pouco por todo o Mundo. Começaram este ano, por acaso, com uma digressão pela América do sul e passaram pelo México. Foi a primeira vez que lá estiveram?
– Foi a segunda ‘tour’ que os Nitzer Ebb realizaram pela América do sul. E, à parte disso, eu próprio tenho ido algumas vezes ao Brasil com o meu outro projecto, Fixmer/McCarthy. Adoramos aquilo ‘lá em baixo’. São audiências muito bem informadas e são muito interactivos nos concertos. É excelente!

– Regressaram aos discos depois de uma ausência de 15 anos. O que vos motivou a voltar ao estúdio? Foi o sucesso de “Body of work” [compilação de êxitos editada pela Mute Records, em 2006]?
– De certa forma, foi. Mas não só o sucesso desse disco. Foi também o grande divertimento que sentíamos quando andávamos em digressão. Pensámos que podíamos tentar escrever novas músicas quando tivéssemos algum tempo livre em Los Angeles entre as datas da nossa “Reunion tour”. E acabou por ser uma experiência fantástica. Por isso, continuámos. Escrevemos para aí uns 30 temas. E, em jeito de balanço, o “Industrial complex” acabou por ser resultado de um processo descontraído e muito produtivo.

McCarthy actua de fato e óculos escuros

– Quanto tempo levaram a fazer o álbum? Ouvi dizer que começaram em 2007…
– O álbum, propriamente dito, demorou cerca de um ano. Mas nós tivemos um calendário muito flexível sem qualquer companhia discográfica a pressionar-nos com prazos. Trabalhámos cinco dias por semana, começando ao final da manhã e acabando ao início da noite. Foi tudo muito civilizado. O maior problema foi decidir a forma como o iríamos editar e através de quem. A indústria da música, especialmente nos Estados Unidos, desmoronou-se quando nós acabámos o disco. Não queríamos assinar um contrato discográfico tradicional e procurámos durante algum tempo pelo modelo que melhor nos poderia servir. E tem nos corrido muito bem com os parceiros que encontrámos. Quer na Europa quer nos Estados Unidos.

– Durante o processo trocaram algumas vezes de baterista até o Jason Payne ficar de novo com o lugar. Não foi fácil encontrar o terceiro elemento para completar o vosso som.
– É sempre complicado arranjar alguém para a nossa equipa. Mas o Jason já tinha trabalhado connosco anteriormente [no álbum “Big hit”, de 1995] e, felizmente, estava de novo disponível. Ele encaixa perfeitamente. Tanto em termos musicais como pessoais.

– Como é que descreve o “Industrial complex”? É um álbum conceptual ou um disco onde cada música pode ter vida própria?
– Em termos musicais, nós procurámos partir para este disco como se fossemos uma banda nova a começar tudo outra vez. Mantivemos tudo o mais básico possível. E em muitos casos nem sequer usámos a electrónica para escrever a música. Tivemos à nossa disposição um pequeno conjunto de instrumentos acústicos: um piano, um pequeno ‘kit’ básico de bateria, um baixo e uma guitarra. E depois fomos tocando juntos as ideias que tínhamos. Trocando, por vezes, os instrumentos que cada um tocava para melhor sentir a ideia da qual poderia vir a surgir uma canção. O Bon [Harris, o outro fundador], depois, transformava esses sons acústicos em electrónicos. E, de certa forma, soa-nos familiar porque basicamente foi o mesmo processo que utilizámos quando gravámos o nosso primeiro disco, “That total age” [1987]. Em termos de letras, eu quis criar imagens fortes através de linhas simbólicas e descritivas. E com isso levar o ouvinte a explorar [as canções] com a sua própria imaginação.

McCarthy e Bon Harris nos anos 80

– O álbum satisfaz o que pretendiam na transição para o palco?
– Muito. Temos tido uma reacção fantástica da nossa audiência em todos os concertos que temos dado.

– O vosso estilo de som parece ter encontrado, neste século XXI, o habitat natural. Sentem que a música electrónica está melhor hoje do que há 20 anos ou é simplesmente mais fácil agora?
– É muito difícil alguém negar a importância da electrónica e da tecnologia em qualquer forma de música nos nossos dias. Penso que nós temos beneficiado muito do trabalho árduo em conseguir um som bem definido desde os nossos primeiros discos. Temos um estilo que é instantaneamente reconhecido mesmo quando envolvido num vasto grupo de outras bandas electrónicas. Muitas pessoas são atraídas para um som muito genérico da música electrónica porque a tecnologia lhes permite isso. Mas, para mim, isso é pura preguiça.

– São associados normalmente à corrente EBM [Eletronic Body Movement] que ganhou fama a partir da Bélgica, no início da década de 80. Como descrevem em palavras o vosso estilo de som? Industrial, Eletro…
– Oh! Lá vem essa velha questão… Talvez como música rock electrónica.

– Que diferenças há nos Nitzer Ebb entre o que a banda é agora e o que eram, por exemplo, em 1990?
– Cerca de 20 anos, ou melhor 21 já que estamos em 2011. Mas, para ser honesto, penso que há uma ideia estabelecida de que estamos melhor que nunca. Até o Daniel Miller, [fundador e director] da Mute Records, o disse.

– Em palco, actualmente, é habitual ver-vos a actuar de fato e gravata. Há 20 anos usavam roupas mais casuais. O que mudou?
– É verdade. Decidimos que devíamos reflectir em palco o que nós somos hoje em dia em vez de tentar recuperar o que fomos há muitos anos. E, embora pareça estranho, até é muito relaxante usar o fato.

McCarthy e Hazel casaram a 1 de Abril de 2010

– Num artigo sobre a vossa recente presença no festival Short Circuit presents Mute, em Londres [n.: 13 de Maio], escreveram que tinha sido pai recentemente. É verdade?
– Jesus! Espero que não. A minha mulher [Hazel Hill] não vai ficar nada contente se descobrir isso. De facto, já sou pai. Tenho quatro filhos com idades entre os 14 e os 23 anos. Três rapazes e uma rapariga. [nota: um deles, Felix McCarthy, faz parte da banda punk The Flaks].

– Os Nitzer Ebb tiveram o seu grande momento da carreira numa altura em que havia muitas drogas e álcool no ‘backstage’. Sentem que isso mudou entretanto ou não? Há alguns músicos a reabilitarem-se e a manterem-se sóbrios como o Dave Gahan [Depeche Mode].
– É uma afirmação bem verdadeira, essa. Muitas pessoas que nós conhecemos abrandaram bastante nos excessos ou cortaram mesmo com eles. Foi o caso do Dave e do Martin [Gore], dos Depeche. Na minha opinião, em tudo na vida, moderação parece ser o truque.

Página 2: A ligação com os Depeche Mode
Página 3: A estreia em Portugal
Página 4: Ao vivo: o antes e o agora

4 respostas a | NITZER EBB | “Estamos melhor que nunca”

  1. Jajm diz:

    Muito boa entrevista. Cumps

  2. Carlos Matos diz:

    Excelente trabalho jornalístico! Parabéns

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