Carlos Ramos (Nick Nicotine): “Chamam-me muitas coisas”

Não tem mãos a medir para as 24 horas do dia. Deixou de fumar, mas mantém o alter-ego Nick Nicotine. E mais uns quantos nomes. A entrevista exclusiva e intimista de uma das figuras incontornáveis da nova música nacional e uma das três pessoas por trás da organização do Barreiro Rocks


Homem dos sete ofícios, dos sete instrumentos, das sete bandas, que afinal são nove. Conhecido como Nick Nicotine no meio artístico, é como ‘Picos’ que é tratado pelos amigos, enquanto a família lhe chama Alexandre. É um dos rostos da Hey Pachuco, administrador dos Estúdios King, músico e estudante. Este ano, como em muitos outros, vai ser também um dos artistas em palco no Barreiro Rocks 2010. Garante que não há conflito entre o Carlos e o Nick. E muito menos com os pais que ainda lhe dão guarida.

FrankMarquesBlog – Como é que surgiu a alcunha ‘Picos’?
Carlos Ramos – Foi no Secundário. Tinha o cabelo um pouco comprido, cortei-o e naquele dia estava vento. Quando entrei na aula de alemão, um colega disse: “Ei, olha, um ‘Picos’”. E ficou.

Hoje em dia toda a gente te chama ‘Picos’?
Não. Os meus pais chamam-me Nico Nicotine (risos). Quer dizer… há quem me chame ‘Picos’, há quem me chame Nicotine. Quem me conhece há muito tempo chama-me Carlos. Da família, ou quem me conhece da escola primária, chamam-me Alexandre. Chamam-me muita coisa: Gordo, cabeçudo… (risos)

E Nick Nicotine surge porquê?
– Isso também foi um amigo. O Valter Ulisses convidou-me para uma banda, em 98, e a cena do gajo era mais do que música. Havia um grande conceito por trás. O Valter era o Mordomo Alfredo. Eu não tinha alcunha e o Pedro Almeida, o Drops, pôs-me a mim, que não era fumador, a de Nick Nicotine. Depois, para fazer jus, fumei durante anos, até há três meses.

Tens ideia de quantas bandas já fizeste?
– Também não são assim tantas… Ao longo da vida, não foram mais do que duas dezenas (risos).

Act Ups, Nicotine’s Orchestra, Los Santeros, Ballyhoos, Singing Dears, Fat Pack, BroX, Sultões e agora também tocas nos Fast Eddie & the Riverside Monkeys. É complicado gerir os vários estilos e as várias bandas?
Não. Há uma diferença entre uma pessoa que gosta de vários estilos musicais, ao ponto de os entender, por oposição a uma outra que tenta apenas imitar um estilo. Eu gosto mesmo de hip-hop, sinto aquilo. É óbvio que está ali uma grande carga de brincadeira por trás dos BroX, na cena dos personagens, mas não deixa de ser real. Quem lá está gosta e entende aquilo. Eu acho que consigo tocar na mesma noite um concerto de cada uma das bandas que tenho.

Qual é a tua profissão?
Não sei (risos). Sou gerente do Estúdio King. Tenho de fazer as marcações, estar cá para as bandas, resolver os problemas técnicos e assumo a parte de produção do que é gravado. Para além disso, cada vez mais considero-me músico. É o que me ocupa grande parte do tempo. Depois, sou o produtor executivo e director do Barreiro Rocks, o que implica ter conhecimento de todos os parafusinhos que entrem no festival.

Com todas essas preocupações, o corpo aguenta?
– Tive de deixar de fumar, sair menos (risos). A sério, chegas a um ponto em que começas a aperceber-te que não dá para tudo. Prefiro passar uma manhã a andar de bicicleta e estar mais fresco para o resto do dia do que sair à noite. Aliás, se sair, já sei qual é o preço que tenho a pagar no dia a seguir.

A luta interior de Carlos contra Nick

Vais actuar este ano no festival à frente da Nicotine’s Ochestra. Como fazes a gestão entre o director e o artista?
É para isso que há um director artístico, o Johnny Intense, que sempre tratou destes assuntos de uma maneira muito profissional. É claro que isto chega a um ponto em que andas a discutir contigo próprio. O Carlos da Pachuco quer gastar o menos dinheiro possível e o Nick músico quer ganhar. E aí surge o Johnny Intense. Eu tento ser o mais profissional possível e tento distinguir as duas vertentes.

Tens cachet no festival?
Claro. É óbvio. Até porque os músicos que vão comigo não tem nada a ver se eu faço parte ou não do festival.

Numa entrevista em Espanha, em 2006, disseste que gostavas de ir viver para Madrid. Porquê?
Na altura sim, mas essas coisas mudam muito. Agora já não. Na altura estava apaixonado pelo facto daquilo ser grande, enorme. Só estava a pensar na questão musical. Consegues tocar muito mais em Espanha. E o que o músico quer é tocar, ganhar dinheiro e fazer disso vida. Coisa que em Portugal é muito difícil. Mas agora tenho o estúdio e o curso, olho para isso de outra forma. Madrid é uma cidade grande demais e a mim mete-me impressão a ideia de viver num grande aglomerado de pessoas. Prefiro ir lá só de visita.

Em Portugal, dá para viver da música?
Em Espanha, há um cachet muito bom que é o dos 700 ou 750 euros. Não é o melhor cachet do Mundo, mas também não é 150 euros. Se tiveres vários concertos numa semana, dá para fazer algum dinheiro. Em Portugal, tens os bares que pagam 150, 200 ou 300 euros. Ou passas para o patamar dos auditórios das Câmaras, que pagam milhares. Não há o meio-termo. E esse meio-termo é o que permite a todos os artistas viver.

E tu, com este estúdio, dá para viveres da música?
Não. Dá para pagar este estúdio e para ter algum dinheiro durante o mês. É tudo muito sazonal enquanto não tiver os empréstimos todos pagos. A minha casa própria neste momento é o estúdio, é esta a renda que tenho de pagar.

Manténs-te em casa dos pais?
Ainda não dei o outro passo. Não sinto pressão exterior [dos meus pais] para o fazer. Interior, sim, há bastantes anos, como qualquer pessoa. Mas lido bem com essa pressão. Faço a minha vida toda fora de casa, mal vou lá comer, apenas dormir.

As bandas de Carlos Ramos:
Act Ups (The)
Ballyhoos (The)
BroX
Fast Eddie & the Riverside Monkeys
Fat Pack
Nicotine’s Orchestra
Santeros (Los)
Singing Dears
Sultões (Os)

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