| Le BUTCHERETTES | A crónica 1 mês após a tragédia de Paris

Le Butcherettes ao vivo em Lyon

Le Butcherettes ao vivo em Lyon

REPORTAGEM

Sexta-feira 13 de novembro de 2015, França. Uma noite para sempre marcada a sangue. O dia em que um concerto lotado, em Paris, dos norte-americanos Eagles of Death Metal foi um dos alvos do ataque terrorista concertado reivindicado pelo “Daesh”, o grupo autoproclamado Estado Islâmico. À mesma hora, este vosso escriba assistia igualmente a um concerto de Rock, em França. Uma grande atuação dos Le Butcherettes, com primeira parte das Little Garçon.

Os Le Butcherettes atuaram nessa mesma fatídica noite de novembro, na segunda maior cidade de França, Lyon. Foi uma noite extremamente fria face aos dias anteriores. O trio liderado por Teri Gender Bender (nome de palco de Teresa Suaréz) é ainda pouco conhecido por estas bandas e apresentou-se numa sala alternativa: um armazém nos arredores de Lyon, batizado como Grrrnd Zero. A primeira parte foi entregue a um grupo local: as Little Garçon.

Little Garçon ao vivo no Grrrnd Zero

Little Garçon ao vivo no Grrrnd Zero

A dupla de meninas – a enérgica guitarrista Kat e vocalista passivo-agressiva Kro – foi acompanhada em palco por um baterista, Aksel Boursier (“aka” Le Réparateur). Muitos amigos do grupo fizeram questão de assistir ao concerto das Little Garçon. Garage Rock vibrante, na linha de White Stripes e The Dead Weather. Temas feministas, força na voz e uma guitarrista que transmite grande vibração à plateia. Boa surpresa.

A sala esteve composta durante o concerto de abertura. À entrada dos Le Butcharettes, a sala estava bem mais quente. Colocámo-nos na primeira fila e concentrámo-nos na música e na banda, que há muito desejávamos conhecer ao vivo. Em especial depois da entrevista exclusiva na antevisnao da estreia em Portugal, no Paredes de Coura 2011. Nesta noite de 13 de novembro, em Lyon, ignorámos a internet.

Durante pouco mais de hora e meia, Teri Gender Bender “sugou-nos” a atenção e satisfez-nos a fome de Rock. Bom Rock. Acompanhada de um baterista e um baixista, a mexicana, nascida Teresa Suaréz nos Estados Unidos em 1989, apresentou-se de vestido vermelho vivo, sapatos de salto, tocou órgão, cantou com alma, gritou, sussurrou, falou em espanhol, agradeceu em francês.

Le Butcherettes no Grrrnd Zero

Le Butcherettes no Grrrnd Zero

A sala perdeu espetadores a conta gotas. Estranho, comentámos entre nós. O concerto dos Le Butcherettes estava a ser muito bom e a cumprir as expetativas, que, diga-se, eram altas. Talvez fosse do frio. Estava uma noite mesmo fria em Lyon. O concerto prosseguiu. Teri entregou-se. Contagiou-nos. Tudo parecia estar a correr bem à exceção do público, cada vez mais reduzido.

Após o final do concerto, Teri recolheu-se. Os colegas mantiveram-se nas traseiras do palco até surgir o sinal de que não haveria “encore”. Estranho. Tinham ficado no ar umas reticências… Faltava o ponto final. Nada feito.

Deslocámo-nos à banca de “merchandising”, comprámos os dois últimos álbuns, um em vinil e outro em CD, e duas “t-shirts”. Perguntámos se seria possível a Teri vir ter connosco para nos autografar os discos. Ela vinha já, asseguraram-nos. Chegou. Dirigiu-se de pronto a nós. Apresentámo-nos e ela, meio assustada, perguntou: “Já sabem o que aconteceu em Paris?”

“Em Paris? Não. O que foi?”, retorquímos. “Parece que houve uma bomba no concerto dos Eagles of Death Metal”, disse-nos Teri Gender Bender. À hora que ela nos dizia isto (23h15), o ataque no Le Bataclan, em Paris, ainda prosseguia soubemos depois.

Outros ataques simultâneos aconteceram na capital francesa. Houve bombistas suicidas, mas mais do que isso: houve fuzilamento indiscriminado de inocentes em restaurantes, cafés e junto ao Estádio de França, onde a seleção gaulesa de futebol defrontava a Alemanha, num jogo particular.

No Le Bataclan, onde os Eagles of Death Metal levavam cerca de meia-hora de atuação de um concerto lotado com mais de 1000 entusiastas, foram mortas 89 pessoas. Assassinadas quando se divirtiam num concerto de Rock’N’Roll. Foram fuziladas por pelo menos 2 terroristas empunhando armas automáticas e usando cintos de explosivos. Um banho de sangue. À mesma hora, nós também nos divertíamos a assistir em Lyon a um concerto de Rock.

Don’t speak, Eagles of Death Metal
(Terceiro tema do alinhamento no Le Bataclan, a 13 de novembro)

“Cherry Cola”, Eagles of Death Metal
(Atuação no Le Bataclan, em Paris, minutos antes do ataque)

O momento dos disparos no Le Bataclan

A fuga das vítimas no Le Bataclan

O mundo passou-nos ao lado. A música prendeu-nos. Despertámos para o pesadelo após o concerto. Tínhamos de regressar a casa. Seria seguro? Seria só em Paris? Entrámos no carro, ligámos o rádio. Muita informação confusa era adiantada.

Já em casa, a televisão focou-se nos ataques de Paris. No dia seguinte trabalhava, às 07h da manhã. Foi impossível conseguir fechar os olhos antes das 04h.

Terror em nome da religião
O terror de 13 de novembro atingiu apenas apenas a capital francesa, mas ecoou por todo o planeta. Morreram 130 pessoas. O pior ataque terrorista de que há memória em França desde o final da II Guerra Mundial.

O “Daesh” reivindicou o atentado concertado. Terá sido uma alegada vingança pela intervenção francesa no combate aos “jihadistas” na Síria. Um ataque contra inocentes em nome da imposição do radicalismo de uma religião. A França entrou em Estado de Emergência.

Os Le Butcherettes tinham um concerto marcado para Paris no dia seguinte. Foi naturalmente anulado. Tal como o concerto dos U2 nesse mesmo sábado, em Bercy. Os irlandeses viriam a atuar já em dezembro, promovendo o simbólico regresso aos palcos, de novo em Paris, dos Eagles of Death Metal.

Os Eagles of Death Metal no concerto dos U2

A vida continua. Mas não mais será a mesma em Paris, em França, na Europa, no Mundo. O terror do 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, e do 11 de março de 2004, em Madrid, fez-se sentir em Paris a 13 de novembro de 2015. Uma vez mais, terror em nome de radicais islâmicos.

Rescaldo de uma noite trágica
No final da digressão europeia, que passou por Lisboa (Sabotage, 6 de novembro) e Leiria (Teatro José Lúcio da Silva, 7 de novembro), em Portugal, Teri Gender Bender partilhou na internet uma carta aberta. A mexicana agradeceu o apoio recebido e enalteceu a coragem de quem não se rendeu ao terrorismo e continuou a ir a concertos.

“Há muito amor e boa energia a correr nas veias dos jovens. Muitos não se deixam vencer pelo medo e ainda saem de suas casas para desfrutar”, escreveu Teresa, a 25 de novembro.

Três dias após os ataques de Paris, as Little Garçon declaravam pelas redes sociais da internet “longa vida ao Rock’N’Roll, à cultura, ao desporto, aos momentos de partilha, juntos, de trocas, de reencontros, de amor e da vida”.

“Cheias de amor por todos vocês, os nossos pensamentos estão com os nossos amigos parisienses e com as famílias das vítimas. Viva a liberdade. Paz, Amor e Resistência!”, concluiu a dupla, com a vocalista, em nome próprio, a acrescentar: “Paz, amor e Death Metal.”

Pelo Twitter, os Le Butcherettes confirmaram a anulaçnao do concerto em Paris, a 14 de novembro, e deixaram uma mensagem aos compatriotas cujo concerto havia sido interrompido a tiro na véspera. “A enviar o nosso amor aos Eagles of Detah Metal e condolências a todas as famílias que foram afetadas. O coração dói”, escreveu o trio norte-americano.

Os Le Butcherettes voltaram aos palcos a 15 de novembro, em Rouen, França. “Obrigado por terem vindo e nos terem dado o vosso amor. Vocês são a prova de que o Medo não nos pode manter trancados”, escreveu o grupo no Twitter. O grupo promete voltar à Europa em 2016.

Cerca de 3 semanas antes de vermos os Le Butcherettes assistimos ao concerto dos !!! (Chk Chk Chk), também em Lyon. Depois daquela sexta-feira, 13 de novembro, não voltámos a ir a concertos. Mas não por medo. Não calhou. Vamos voltar. Na agenda, o próximo imperdível marca o reencontro, a 27 de fevereiro, com as Savages. Antes haverá certamente outros. A música é invencível e nós merecemos ser livres para a desfrutar.

Esta crónica é também em memória das vítimas do terrorismo. De Paris a Bamako. De Aleppo a Beirute.

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