| GOGOL BORDELLO | Explosão de Rock contra a segregação

Punk cigano ao vivo em Lyon

Punk cigano ao vivo em Lyon

REPORTAGEM

Dia de celebração em Portugal da Restauração da Independência, após 60 anos de domínio espanhol no século XV. Outrora feriado. Em França, foi apenas mais um domingo, mas este com a visita ao Le Transbordeur dos multiétnicos Gogol Bordello. A banda de Eugene Hütz está cada vez mais global e as novidades que descobrimos passam pela forte influência sul-americana, já de si a ressaltar no título do disco, “Pura Vida Conspiracy”, inscrito também numa tela ao fundo do palco.

Às 20h30, as luzes da sala principal de concertos do “Le Transbor”, como é conhecido o espaço, apagam-se. Arranca o concerto com uma introdução instrumental, bem Rock. Yevgeny, o diabólico vocalista ucraniano, de 41 anos, que o Mundo conhece como Eugene, é o último a entrar. E quase de pronto lança a festa. “We Rise Again”, tema que abre o novo disco, dá o mote. A plateia corresponde, os braços levantam-se, o público entoa o refrão. Estamos todos em sintonia.

Rise Again, Gogol Bordello ao vivo em Lyon
(Video registado a 1 de dezembro de 2013 e publicado por MrCaribooo)

Sem descanso, recuo a outros tempos: “Not a crime”, recupera o disco de 2005 “Gipsy Punks: Underdog World Strike”, o álbum que lhes deu fama em Portugal. Salto de dois anos à frente: eis “Wanderlust King”, de “Super Taranta”, disco lançado em 2007, duas semanas antes da estreia em palcos portugueses – foi no Castelo de Sines, incluídos no cartaz do abrangente Músicas do Mundo. Aos ritmos ciganos dos Balcãs que sempre nortearam os Gogol Bordello, juntam-se ao de leve o Reggae, o Dub e a esta altura também já o calor e eco do público. Algo que o grupo também já havia sentido este ano em Portugal quando passaram em maio pelas semanas académicas de Coimbra e Porto (fotos de Portugal no facebook dos Gogol).

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Na plateia, o “crowd surfing” é constante. Há quem cruze toda a salta passando de braços em braços. O ambiente está bem vivo. “Other Side of the Rainbow” retoma “Pura Vida…”, mas agora num registo mais camo. É preciso respirar. Quebrar um pouco a loucura. Os ritmos latinos enchem a sala e voltam a apelar à dança aravés de “Mi Companjera”. Reclama-se a integração, a tolerância, a liberdade. Um cavaquinho dá a partida para “Dig Deep Enough”, entremeada por pequenas explosões de Trash Metal.

Eugene Hütz esteve incontrolável

Eugene Hütz esteve incontrolável

“Vamos levar-vos à América Latina por um bocadinho”, atira Eugene, no lançamento de “Last One Goes the Hope”. Nove pessoas estão em palco e dois deles são auténticos complementos à loucura do vocalista, pela forma enérgica como puxam pelo público, que parece enfeitiçado pelo ritmo cigano. “Quando a morte vier já lá não estarei”, é a tradução do verso inicial de “Trans Continental Hustle”, música onde se juntam Vasco da Gama, Bob Marley e Joe Strummer, e que é o tema-título do álbum de 2010. É a multiculturalidade no seu máximo.

“Imigraniada” mantém o concerto no registo de 2010, que foi produzido por Rick Rubin e colheu inspiração no Brasil, onde Eugene vivia desde 2008. “Break the Spell” apela ao fim da segregação, uma mensagem tão atual, sublinhada por Eugene sem saber, à altura deste concerto, o que viria a suceder uns dias depois, com a morte de Nelson Mandela, o símbolo da antissegregação. “When Universes Collide” volta a permitir recuperar o fôlego. “Pala Tute” mistura os ritmos “caliente” aos Balcãs. Cola-se-lhe “Malandrino”, um dos “murros” mais fortes de “Pura Vida…”. Junta-se uma dupla de sopros mariachis e são 10 os elementos da banda em palco.

Comunhão de culturas em palco

Comunhão de culturas em palco

Eugene abre uma segunda garrafa de vinho. Da primeira pouco ou nada bebeu. E da segunda… com a segunda, aliás, regou as primeiras filas da plateia. Ouve-se “Sun is on My Side”, mas uma de “Trans Continental…”. “Start Wearing Purple” e “Sally”, single conjunto de 2006, extraído de “Gipsy Punks”, fecha, com temperatura elevada, o concerto. São 21h42. Ainda há tempo, energia e vontade expressa para mais. De parte a parte. O público bate com os pés no soalho, num som que nos é familiar, por exemplo, dos concertos no Coliseu de Lisboa.

“Mishto”, Gogol Bordello ao vivo em Lyon
(Video registado a 1 de dezembro de 2013 e publicado por Alea)

A banda demora-se três minutos nos bastidores. Regressa a cona gotas. Eugene, de novo, é o último. “Lost Innocent World” abre o encore e, logo depois, o vocalista fica sozinho em palco para uma versão acústica a solo de “Alcohol”, de “Super Taranta”, que termina já acompanhado de violino e acordeão. “Mishto”, que fecha “Gypsy Punks…”, e “Ultimate”, que abre o seguinte “Super Taranta”, encerram o concerto pelas 22h, com a plateia totalmente rendida. A banda fica em palco a agradecer e, aos poucos, vão saindo.

A setlist oficial (houve uma troca)

A setlist oficial (houve uma troca)

Eugene demora-se um pouco mais. Percebe-se porquê. Deteve-se a falar com alguém junto as primeiras filas de público. De repente, iça uma rapariga para o palco, cobre-a com uma bandeira e os dois desaparecem abraçados rumo aos bastidores. Um concerto de Rock também é isto!

Com as luzes acesas e o palco já sem ninguém, a versão de Johnny Cash e Joe Strummer para “Redemption Song”, de Bob Marley, serve de perfeito ponto final parágrafo para uma bela noite de música ao vivo. Uma explosão de Rock global antissegregação.

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