| SALLIE FORD & the SOUND OUTSIDE | Rock gripado

Sallie Ford não resistiu à garganta

Sallie Ford rendeu-se à gripe

REPORTAGEM
Cruzámo-nos com Sallie Ford de surpresa em Lyon. O concerto no Le Transbordeur não encheu, mas também não era a noite dela. Os Sound Outside, que a acompanham desde 2007, deram boa conta do recado, mas a gripe atacou a garganta da vocalista e o concerto, que ainda assim estava a ser bom, acabou antes do previsto.

Tínhamos alguma expetativa sobre Sallie Ford. Mas não correu bem a primeira vez que nos cruzámos ao vivo com esta norte-americana, de 26 anos (nasceu a 4 de setembro de 1987, na Carolina do Norte), filha de um manipulador de marionetas e a voz de um projeto Rock com salpicos de Folk, Surfin’ e até Rockabilly. Os Sound Outside, que acompanham Sallie, são três rapazes com ar “geek” e que complementam a aparente vivacidade da vocalista. Aparente porque esta foi uma noite de meros sinais do que poderá ser, de facto, um concerto do grupo.

——————–
Página 2: Biografia e discos editados para escuta
——————–

A vocalista bebeu muitos líquidos

A vocalista bebeu muitos líquidos

Marcado para as 20h30, Sallie Ford & the Sound Outside entraram escassos minutos atrasados. Nada de mais. O Le Transbordeur, em Lyon, estava a cerca de um terço da lotação. Tímida saudação e arranque com um instrumental, em que a bateria se destacou entre riffs prometedores e um baixo forte. “Shivers”, do último álbum “Untamed Beast”, começou cedo a deixar perceber que algo se passava com Sallie. Havia uma certa saturação da voz nas notas mais agudas.

A norte-americana, de vestido curto escondido sob um casaco e óculos retro, fez-se forte. O público estava a gostar. Nós também. “Where did you go?” recuperou “Dirty Radio”, o primeiro longa duração de 2011. “Estou a soar como um rapaz a sair da puberdade”, assumiu Sallie, no final de um tema em que as falhas vocais nos agudos foram mais notórias. E, bem disposta, acrescentou: “Quem me dera agora que fôssemos uma banda instrumental”. Não são. E o espetáculo tem de continuar.

Sallie, Tornfelt e, ao fundo, Tennis

Sallie, Tornfelt e, ao fundo, Tennis

O guitarrista, Jeff Munger, sai de cena e vai fazer um chá para a vocalista. Os restantes três lançam-se a “Devil”, mais uma do disco de 2013. Boa recepção do público presente, que revela conhecer “Untamed Beast” e saber ao que vinha.

Uns tragos de chá ainda bem quente e casaco despido, é de alças e sem a guitarra que Sallie se lança a mais um tema: “Lip Boy”. A habitual voz nasalada carrega uma “Soul” muito particular, mas estava a emperrar. “Paris”, também do novo disco, surge como uma retribuição ao país que a recebia e arrancou com a descrição da capital gaulesa como “a mais romântica cidade do Mundo”. Junta-lhe “Addicted”. Mas a tosse aumentava. E a dificuldade de cantar também. Na ode bissexual “Bad Boys”, de travo Surfin’ Rock, Sallie canta às tantas, curiosamente, “I can scream, I can yell” (posso gritar, posso berrar). Mas não, já quase não consegue cantar.

Primeiras filas sempre animadas

Primeiras filas sempre animadas

O público estava rendido. As letras são cativantes, a música pegajosa. “They told me”, que abre o novo disco e cujo videoclipe (para ver mais abaixo) é do mais provocante que vimos ultimamente, antecede uma pequena reunião de grupo. Sallie pede a Jeff para baixar uma nota e aos outros para se adaptarem. “É um teste para ver se estes gajos são mesmo bons músicos”, diz ela para o público. “Consigo fazer os graves, mas já não consigo os agudos”, justifica-se aos companheiros.

“Penso que consigo fazer esta”, atira. E surge “Against the Law”. Cola-se “Cage”, com um final trepidante da bateria, e, ainda de “Dirty Radio”, “Write Me a Letter”. A voz volta a falhar a meio. Sallie insiste em continuar, mas a “setlist” vai ser readaptada face às dificuldades vocais. O concerto é relançado com a cover de um original de 1974, da autoria do britânico Werckless Eric: “(I’d go the) Whole Wide World”.

“They Told Me”, Sallie Ford & the Sound Outside
(Videoclipe oficial)

“Fuck That” é um tema alegre, inédito em disco e, ainda assim, um dos melhores recebidos pelo público. Grito Punk de liberdade individual que antecede a apresentação de “Summer EP”, o mini álbum que o grupo lança a meio de dezembro e do qual já libertou um tema para download gratuito, “Lips’n’Hips”, que ainda é iniciada, mas logo interrompida.

A tosse de Sallie foi progressiva

A tosse de Sallie foi progressiva

“I can’t sing this shit” (não consigo cantar esta merda), desabafa, de costas para o público, rodeada pelos companheiros e sem perceber que era escutada por quem estava nas primeiras filas. O riso do público atento leva Sallie a pedir desculpa, mas a assumir, finalmente: “Não consigo cantar mais músicas. Tenho a voz toda a fodida”. Num último esforço, Sallie insiste em mais um tema, “The Party”. Foi o último. No final, cerca de uma hora depois do arranque, a vocalista solta um seco “can’t sing” (não consigo cantar) e sai de rompante do palco, arrastando o resto da banda, sem nada mais ser dito ao público, que se havia revelado paciente e solidário com as notórias dificuldades. Um fim precoce e pouco correto, diga-se.

A verdade é que a insistência em ter levado este concerto da “tour” francesa para a frente saiu caro a Sallie Ford. Através do Facebook, a banda anunciou o cancelamento do concerto seguinte em Romans sur Isère, revelando até uma foto dos muitos medicamentos que Sallie estaria a tomar. Arriscaram voltar a subir ao palco em Arles, mas este sábado novo cancelamento e a confirmação: “Desculpa, Marselha, mas temos de cancelar. A Sallie tem laringite e não consegue cantar. Vemo-nos numa próxima vez.”

O público esperou em vão regresso do grupo

O público esperou em vão regresso do grupo

Nos comentários a esta última publicação, em resposta a uma reclamação por não ter também cancelado no Le Transbordeur e ter saído de rompante do palco sem uma palavra para o público, Sallie Ford reagiu e, por fim, explicou-se: “Não sabia que aquilo me ia a acontecer em Lyon até estar no palco e ter acontecido. Foi um choque e tudo isto foi muito difícil para mim”. Desculpas aceites. Ficamos à espera de uma segunda oportunidade. Quem sabe… em Portugal.

Concerto no Bumbershot Music Lounge – KEXP
(1 de setembro de 2013)

——————–
Página 2: Biografia e discos editados para escuta
——————–

Esta entrada foi publicada em Concertos: Reportagem, Música com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s