| DEAD CAN DANCE | A sedução das serpentes em Lisboa

Da penumbra se fez luz

Dead Can Dance no Coliseu

REPORTAGEM |
É um mito, já se sabe, que as cobras consigam ouvir a música do encantador; elas apenas sentem vibrações e são levadas a seguir os movimentos da flauta. Mas na terça-feira, 28 de maio, era mesmo a música que fazia dançar as cabeças das pessoas que lotaram o Coliseu de Lisboa, naquele que foi o primeiro concerto da dupla Lisa Gerrard e Brendan Perry na capital portuguesa. Uma viagem no tempo, há muito aguardada, pelos muitos e variados ritmos do Mediterrâneo.
A espaços, uma viagem arrepiante!

Trinta anos sem presentear Portugal com um concerto e, em menos de um ano, os Dead Can Dance dão três espetáculos no nosso país, com a particularidade de dois deles terem acontecido no Porto: a estreia foi na Casa da Música, em outubro de 2012; o terceiro, incluídos no cartaz do Primavera Sound Porto. Pelo meio, na terça-feira, 28 de maio, visitaram o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde finalmente acabou a espera dos que não conseguiram bilhete para a estreia de há cerca de 7 meses e dos que preferiram vê-los fora do âmbito sempre limitado e abrangente de um festival mesmo estando a falar de um evento eclético como o Primavera Sound. Mas… vamos ao que interessa.

O jogo de luzes

O jogo de luzes

Sala esgotado há muito, os Dead Can Dance foram recebidos num Coliseu repleto de cadeiras na plateia. O concerto estava marcado para as 20h30 e não havia informação sobre uma eventual primeira parte por outro artista. Houve. A responsabilidade recaiu no alemão David Kuckhermann, percussionista que colaborou na produção do último álbum dos Dead Can dance, “Anastasis”, e também faz parte da banda de palco na presente digressão. David é um promotor de instrumentos de percussão. Pelas 21h, David apresentou-se em palco à frente de três “panelas” e foi com elas que maravilhou a surpreendida plateia. Conhecido como Hang, este é um instrumento de origem suiça com um som que se situa algurs entre um piano, uma guitarra e um batuque. A destreza, a coordenação e as músicas de David foram. no mínimo, impressionantes. Após meia-hora de espetáculo, temperada por algumas histórias sobre a origem dos instrumentos utilizados, o público não conteve as palmas aos ritmos etéreos e tribais produzidos pelo percussionista alemão nascido em 1979. Nota negativa apenas para a organização do concerto que foi permitindo a entrada de público durante a atuação de David Kuckhermann, desrespeitando o músico, não cumprindo as regras inscritas no próprio bilhete de não ser permitida entrada depois do início do espetáculo e, claro, perturbando quem estava a desfrutar do momento. E éramos muitos.

Lisa e Perry ao centro

Perry e Lisa ao centro

Às 22h, as luzes do Coliseu apagaram-se para gáudio de quem há muitos anos esperava pelos Dead Can Dance. Temia-se o pior: palmas porque sim e porque não. Não se confirmou. Muito respeito e muita degustação de cada uma das músicas com que Brendan Perry e Lisa Gerrard nos presentearam. “Children of the sun” e “Agape”, do último disco “Anastasis” (2012), deram o mote. Começávamos a viagem pelo norte de África. Perry, de camisa escura, mostrou-se solto, dançando ao ritmo da música. Lisa esteve quieta, protegida por um manto que lhe dava uma certa áurea de deusa grega.

Ao terceiro tema, o primeiro salto na carreira do grupo. Recuo de quase duas décadas, a “Toward the within”, com “Rakim”, um dos mais reconhecíveis temas da história dos Dead Can Dance. Regresso, para mais dois tomos a “Anastasis” e nova incursão ao já citado disco gravado ao vivo em 1994, com “Sanvean”. Na plateia, as ondas sincronizadas da cabeça das pessoas ao ritmo da música faziam lembrar serpentes hipnotizadas pela flauta do encantador. Estávamos, de facto, encantados, inebriados, presos. Pela música.

“Rakim”, Dead Can Dance ao vivo em Lisboa
(video publicado por Laura Ramos)

Perry e Gerrard, além do já citado Kuckhermann, fizeram-e acompanhar no palco do Coliseu por mais um baterista e dois teclistas, que também ajudavam nas vozes de fundo. “Black Sun”, de 1990, com uma percussão possante, antecedeu uma versão meio tribal de “Nierika”, de 1996. “Opium”, do mais recente álbum, leva Perry a colocar entre as pernas um enorme Djambé, que mantém para a recordação esotérica do disco de 1988, “The Serpent’s Egg”, com “The Host of Seraphim”.

Da penumbra se fez luz

Da penumbra se fez luz

Pouco mais de uma hora depois do início do concerto, e à excepção de alguns “obrigados” entre músicas, Brendan Perry dirigi-se pela primeira vez ao público para apresentar a versão que se seguia de uma música tradicional grega dos anos 30 e recordou o período de crise que na altura se vivia, comparando-o com o atual: “Os governos não estão a fazer o que deviam”, acusou o australiano de 53 anos. “Cantara” parte-se ao meio, dividindo-se entre um ritmo arrastado e uma progressiva batida tribal. Lisa Gerrard sai de cena. Brendan Perry fecha o concerto com “All in Good Time”. Faltava o encore.

“The Host of Seraphim”, Dead Can dance ao vivo em Lisboa
(video publicado por Laura Ramos)

Cinco minutos de palmas e assobios volvidos, os Dead Can Dance retomavam o palco. Ainda sem Lisa. Sente-se o ar quente do norte de África. Ouve-se “The Ubiquitous Mr. Lovegrove”, tema que celebra por estes dias duas décadas. Seguiu-se, já com a vocalista de 52 anos em palco, para um duplo momento dedicado à obra do projeto paralelo This Mortal Coil, carimbado com uma versão arrepiante de “Song to the Siren”, de Tim Buckley. “The Return of the She-King”, com um certo toque “scotish”, marcou o adeus definitivo dos Dead Can Dance neste primeiro concerto da carreira em Lisboa. 1h45 depois do arranque, luzes acesas, público rendido, pele de galinha, acabou a “viagem”! No tempo certo.

Dois dias depois, os Dead Can Dance voltariam a atuar para o público português, mas ao ar livre. Rezam as crónicas: numa fria noite portuense, na abertura do Primavera Sound, entre as atuações de Breeders e Nick Cave & the Bad Seeds. Mas essa já é outra história.

Concerto intenso

Concerto intenso

Setlist:
1. Children of The Sun (“Anastasis”, 2012)
2. Agape (“Anastasis”, 2012)
3. Rakim (Toward the within”, 1994)
4. Kiko (“Anastasis”, 2012)
5. Amnesia (“Anastasis”, 2012)
6. Sanvean (Toward the within”, 1994)
7. Black Sun (“Aion”, 1990)
8. Nierika (“Spiritchaser”, 1996)
9. Opium (“Anastasis”, 2012)
10. The Host of Seraphim (“The Serpent’s Egg”, 1988)
11. Ime Prezakias (música tradicional grega dos anos 30)
12. Cantara (“Within the Realm of a Dying Sun”, 1987)
13. All in Good Time (“Anastasis”, 2012)

Encore:
14. The Ubiquitous Mr. Lovegrove (“Into the Labyrinth”, 1993)
15. Dreams Made Flesh (This Mortal Coil, 1984)
16. Song To The Siren (This Mortal Coil, 1984: original de Tim Buckley, 1969)
17. The Return of The She-King (“Anastasis”, 2012)

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Concertos: Reportagem, Música com as etiquetas , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s