| DEAD COMBO no AMAC | “Mortos” dão vida ao Barreiro

Os Dead Combo na reabertura do AMAC

Os Dead Combo na reabertura do AMAC

“O erro faz parte da música e temos de os assumir”, diziam-nos os Dead Combo, em entrevista, no final de 2011. Este sábado, naquele que foi o primeiro concerto do grupo em 2013, foi isso que sentimos: um concerto com algumas dessintonias de um duo que se revela coeso em palco e capaz de tornar os pequenos toques ao lado num espetáculo honesto, entusiasta e que nos prende. A música ao vivo deve ser isto mesmo e aqui ganhou até mais força pela ausência da voz que não se sente. E foram quase 2 horas de música e pouca conversa.

O espetáculo estava anunciado para as 21h30. Uma hora antes, já havia muita gente a circundar o Auditório Municipal do Barreiro (AMAC), que nesta noite (2 de fevereiro) reabria para concertos após um encerramento de quase dois anos para obras. Às anunciadas 21h30, o “foyer”, também desde este dia galeria que recebe uma exposição alusiva ao artista Augusta Cabrita (até 2 de maio), estava repleto de pessoas – uma “fauna musicoólica” dos 3 aos, arriscamos, 80 anos. Por essa altura, a sala abriu as portas do auditório e o espaço de cadeiras começou a preencher-se. Às 21h45, as luzes baixaram e pouco depois arrancava a introdução para aquele que foi o primeiro concerto dos Dead Combo no ano em que o Gangster (Pedro Gonçalves) e o Cangalheiro (Tó Trips) completam uma década de comunhão sonora. Curiosamente, é também o ano em que o AMAC celebra 10 anos de existência.

Palco cenografado a preceito

Altifalantes antigos prenchiam cenário

O palco estava “cenografado” a preceito. As projeções ao fundo realçavam a informação “alfacinha” contida no eco dos instrumentos. Tudo arrancou mais a sério às 21h50, com os dois artistas em cena: o Gangster agarrado ao contra-baixo e o Cangalheiro de guitarra em punho e o pé esquerdo a fazer do soalho do palco a principal fonte de percussão desta “pequena orquestra defunta”. O arranque deu-se com “Rumbero”, tema incluído numa compilação denominada “Bonus tracks”, que pode ser descarregada legal e gratuitamente na página da entrevista que o grupo nos concedeu em 2011.

O Cangalheiro escondido na cartola

O Cangalheiro escondido na cartola

O segundo tomo foi “Sopas de cavalo cansado”, de “Lusitânia playboys”, disco prestes a fazer 5 anos. Uma voz de criança ouviu-se na sala, repetindo satisfeita o nome do tema acabado de apresentar pelo Cangalheiro. A seguir, entrou-se na “Lisboa mulata”, o disco que os Dead Combo lançaram em Portugal em 2011 e que se preparam para relançar a 11 de fevereiro em França. “Cachupa man” foi a “anfitriã” desse disco e foi saudada pelas palmas de uma assistência que pareceu rendida ao grupo logo a partir do primeiro vislumbre da decoração de palco. Tal como haviam feito na recente entrevista ao FrankMarques’blog a propósito deste regresso ao Barreiro, desta vez foi pela voz do Cangalheiro que os Dead Combo assumiram a “honra de estar na reabertura deste centro cultural”, como descreveram o AMAC.

O Gangster armou-se de contrabaixo

O Gangster armou-se de contrabaixo

Foi um concerto exclusivamente instrumental, com acelerações e travagens, com uma acústica que permitia ouvir qualquer arranhar de cordas, qualquer toque no soalho ou nos instrumentos. Sons de detalhe que o público soube respeitar e desfrutar. Foi, especialmente, por estes sons que se notaram os referidos erros. Mas que não se pense que esta é uma crítica ao grupo, é antes, sublinhe-se, um elogio. Eles próprios assumiram o gosto por esses imprevistos naturais, na citada entrevista de 2011. E o público mostra gostar também. Para quem não é músico, como acontece cá por casa, o que interessa é desfrutar da música que nos oferecem e a dos Dead Combo, em disco, e acima de tudo em concerto, é… envolvente, sedutora, agarra-nos, algema-nos, faz-se respeitar, satisfaz-nos.

O Rock é isso mesmo: uma expressão artística que se quer orgânica, emocional, honesta e com vida própria em palco. E os Dead Combo, embora colados a um registo quase fadista, são “Rockers” e fazem a ponte entre esses dois estilos, dando-lhes a espaços um curioso toque “western” – alguém falou em Tarantino? Há notas que saem ao lado, pareceu-nos. Há temporizações que se deslocam da sintonia, sim. Eles não se detêm, estão habituados, são músicos de café, são descontraídos e divertem-se a tocar como se entre amigos estivessem. Desta feita, contaram como um auditório lotado de amigos da arte que fazem e que celebraram cada uma das mais de 15 músicas interpretadas no AMAC e a que o grupo deu nomes tão curiosos como “Putos a roubar maçãs” ou “Morninha do Inferno”.

Duelo de guitarras

Duelo de guitarras

Foi uma noite de comunhão, com algumas histórias pelo meio, incluindo a daquela manhã de agosto de 2011 em que zarparam num pequeno barco – desde o Barreiro rumo a uma ilha de cascas de ostras no meio do Tejo – para fotografar a capa do álbum “Lisboa mulata”. Uma história que levou o aparentemente tímido Cangalheiro, sempre com os olhos ocultos na sombra da cartola quando se dirigia ao público, a rebatizar por esta noite uma das músicas do grupo: A “aurora” trocou Lisboa pelo Barreiro.

Pelas 23h20, hora e meia depois do início, os Dead Combo aproveitaram a “Marchinha de Santo António descambado” para fechar o concerto. Deixaram alguns dos acordes em loop, abandonaram o palco sob aplausos, que se intensificaram nos dois minutos seguintes. Até que eles regressassem. O que se confirmou e eles mesmos, já no “plateau”, puseram um ponto final na “marchinha” que ainda se ouvia. “Obrigado por nos aturarem”, disse o Cangalheiro, dirigindo-se uma vez mais ao público, a quem já o Gangster havia prestado tributo antes por ter permitido à dupla chegar aos 10 anos de carreira. Voltaremos, porventura, a falar em 2023…

O Gangster e o Cangalheiro voltaram a "algemar" o público do Barreiro a um concerto de "Western Fado"

Gangster e Cangalheiro voltaram a “algemar” o público do Barreiro a um concerto de “Rock’n’Western Fado”

Mais 2 temas e um final em crescendo, conduziram o concerto até ao desfecho. Eram 23h30, as luzes acenderam-se, o público levantou-se, abandonou a sala comentando pela positiva o que tinha acabado de experienciar. Para o Barreiro, foi uma noite importante, a cidade voltou a ter um auditório para receber espetáculos de um certo calibre. O primeiro já está e foi um sucesso. Veremos o que a agenda do AMAC nos irá sugerir nos próximos tempos, sabendo nós que há várias salas pequenas na cidade como Be Jazz Café, o Disorder Bar, os Penicheiros ou o Casa Velha Pub com programas dinâmicos de pequenos concertos.

Para os Dead Combo ficou aberto, no que a concertos diz respeito, o ano do 10.º aniversário, celebração especial que fica interligada ao Barreiro e que terá à partida como pontos de destaque o concerto de 28 de fevereiro em Paris e a presença, a 12 de julho, no Festival Alive. Desconhecemos se a dupla lisboeta, contudo, teve oportunidade de concretizar o desejo de provar as famosas Bolas de Manteiga barreirenses, numa adaptação “sem reservas” do programa de culinária norte-americano em que participaram há alguns meses. Se não tiveram, mais oportunidades irão certamente surgir. Para já, deixaram pelo menos o Barreiro mais vivo no que à Cultura diz respeito.

“Inquietação” Dead Combo & Camané
O lisboeta Camané foi, a par de Marc Ribbot e Sérgio Godinho, um dos mais ilustres convidados do disco “Lisboa mulata”. A sua colaboração vocal não se fez ouvir no AMAC, mas o eco da sua voz sobrevoou muitos dos ritmos entoados pela dupla no Barreiro. No BandCamp dos Dead Combo foi disponibilizado em outubro este tema como download legal & gratuito. “Inquietação” é uma revisão de um original de José Mário Branco, que os Dead Combo gravaram com Camané para o genérico do Canal Q

Concerto encerrado às 23h30, num espetáculo que durou 105 minutos e deixou a plateia rendida

Instrumentos pousados às 23h30, num concerto que durou 105 minutos e deixou a plateia rendida

Ler:
Entrevista exclusiva com os Dead Combo a antecipar o concerto no Barreiro e o ano de 2013

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