| JACK WHITE – Lisboa | O lado pop do Garage Rock

Concerto a solo no Coliseu

\\ REPORTAGEM
Arrancou um pouco depois da hora. Quase chegou à meia-noite. Um encore, 9 músicas e meia do novo disco, 6 sacadas aos White Stripes, 2 aos Dead Weather e outras 2 aos Raconteurs mais 2 covers. Foram 22 músicas que deixaram o sabor agri-doce num concerto que se esperava um pouco mais Rock, mas que ainda assim, como seria expetável, ficou longe de ser mau. Portugal foi o tubo de ensaio para a tour europeia do senhor John Anthony Gillis (sim, é o nome verdadeiro do rapaz).

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Foi anunciado no final de julho. Marcado para a última noite de agosto. Esteve praticamente cheio. Serviu para lançar a primeira digressão europeia da nova carreira a solo. Jack White escolheu Lisboa para ser o tubo de ensaio da tour que o levará ainda a França, Suíça, Bélgica, Reino Unido, Noruega e Suécia antes de voltar para mais uma série de espetáculos norte-americanos. No final de outubro regressa ao Velho Continente.

“Sixteen saltines”, Jack White em Lisboa
(Publicado por Helder Jorge Fernandes Martins)

Mas vamos ao que interessa: o concerto lisboeta. Jack White entrou no palco do Coliseu pelas 22h10, de sexta-feira, 31 de agosto. À sua volta, uma estrutura onde até os técnicos de som e os roadies de palco usavam fato a condizer. Alguns, inclusive, estavam de gravata. Tudo em tons azuis e pretos, as cores que dominam a capa de “Blunderbuss”, o primeiro disco em nome próprio de Jack White.

Casa cheia para ouvir “Blunderbuss”

Primeiro acordes surgiram em registo gravado e serviram de introdução. Pertenciam a “I’m shakin”, uma das mais excitantes novas músicas do guitarrista e vocalista dos, até ver, extintos White Stripes. A banda que acompanha White pela Europa assumiu, entretanto, posições. E que bela banda: Contrabaixo, violino, piano, mandolim, pandeireta e, claro, bateria. Sentiu-se a falta de Meg White face ao concerto que vimos dos White Stripes em 2007 no Primavera Sound de Barcelona, mas mais pelo carisma que ela transmite e pela sensualidade que o antigo casal transpirava em palco. O baterista que acompanha Jack, Daru Jones, não fica porém atrás de Meg na forma como dá ritmo aos acordes da guitarra. E Jack, que se assume ele próprio como baterista e não guitarrista, deu-lhe plano de relevo, colocando-o na frente do palco, encostado à esquerda de quem assistia.

“Hotel Yorba”, Jack White em Lisboa
(Publicado por Francesco Mariani)

Após a pequena introdução instrumental, Jack foi ao repertório que construiu com a ex-mulher que lhe cedeu o apelido e abriu o concerto com “Dead Leaves on dirty ground”, música do álbum “White blood cells”, de 2001, mas cuja edição como single acaba de celebrar uma década. E logo aí houve coro no público. Depois surgiram os temas mais fortes de “Blunderbuss”, “Sixteen saltines” à cabeça. Jack White mostrou ao que vinha e expôs o jogo na mesa. O público rendeu-se. Ao quarto tema, “Hotel Yorba”, em registo Country, colocou o Coliseu, praticamente cheio, a dançar. Estava ganho e ainda mal tinha começado.

“Love interruption”/ “Weep themselves to sleep”, Jack White em Lisboa
(Publicado por Helder Jorge Fernandes Martins)

A meio da atuação, porém, o piano ganhou força. As músicas mais calmas de “Blunderbuss” entraram em cena e o crueza rockeira perdeu-se um pouco. Foi o que apelidamos de “lado pop do Garage Rock”. É esta também a nova faceta de Jack White, que nos últimos anos colecionou algumas colaborações menos certeiras para os mais puristas – é o caso da junção a Alicia Keys e a Danger Mouse. Esta última, “Two against one”, foi outra das que passaram pelo coliseu. E mais uma das que quebrou o ritmo da noite. Mas recuperar era fácil e foi o que Jack white fez. Fechou o concerto como tinha começado, com White Stripes. Recuperou “The hardest button to button” e o públicou “carregou” sem dificuldade. Apagaram-se as luzes. As conversas na plateia denotavam satisfação generalizada, mas pedia-se mais.

“The hardest button to button”, Jack White em Lisboa
(Publicado por kuba4444)

Nem 5 minutos passaram, Jack White e companhia voltam ao palco e lançam “Steady as she goes”, segunda incursão da noite no repertório dos The Raconteurs, projeto formado em 2005. Seguiram-se mais 2 de “Blunderbuss”, as últimas das 10 que se ouviram em Lisboa de um disco que inclui 13 faixas. Passou-se por Hank Williams, recuperou-se o último single dos The Dead Weather, “Blue Blood shoes”, a segunda da noite do grupo que juntou a mestria de Jack na bateria à voz de Alisson Mosshart, dos The Kils. E chegou-se ao final apoteótico, com repercussão em qualquer campo de futebol por estes dias. “Seven nation army” foi a pedra toque num concerto que deixou, obviamente, o público pelo beicinho e a pedir por mais. Foi um grande concerto, que não haja dúvidas, mas há por ali umas quebras que não soam assim tão bem para quem se habituou à rudeza dos mais simplistas White Stripes.

“Seven nation army”, Jack White em Lisboa
(Publicado por Migalien)

Ressalva final para as diferenças entre o que Lisboa ouviu e o que Jack White mudou para Madrid, o concerto seguinte, um dia depois: Menos músicas no total, cerca de metade retiradas ao novo disco e mais músicas de White Stripes no alinhamento, entre elas “You’re pretty good looking (for a girl)” e “My doorbell”. Em França, 3 dias depois, Jack retomou a receita lisboeta.

Foto oficial tirada do palco

Setlist – Lisboa, 31 de agosto de 2012
Intro: I’m shakin’ (incompleta) *
1. Dead Leaves and the dirty ground (White Stripes – “White blood cells”, 2001)
2. Sixteen Saltines *
3. Missing pieces *
4. Hotel Yorba (White Stripes – “White blood cells”, 2001)
5. Love interruption *
6. Top yourself (Raconteurs – “Consolers of the lonely”, 2008)
7. I cut like a buffalo (Dead Weather – “Horehound”, 2009))
8. Weep themselves to sleep *
9. Blunderbuss *
10. I guess I should go to sleep *
11. Cannon /Ball and biscuit (White Stripes – “The White Stripes”, 1999/ “Elephant”, 2003)
12. Trash tongue talker *
13. We’re going to be friends (White Stripes – “White blood cells”, 2001)
14. Two against one (Danger Mouse colaboration)
15. The same boy you’ve always known (White Stripes – “White blood cells”, 2001)
16. The hardest button to button (White Stripes – “Elephant”, 2003)

Encore
17. Steady as she goes (Raconteurs – “Broken boy soldiers”, 2006)
18. Freedom at 21 *
19. Hypocritical kiss *
20. Nitro (Dick Dale cover, original de 1993)
21. Blue blood shoes (Dead Weather – “Sea of cowards”, 2010)
22. Seven nation army (White Stripes – “Elephant”, 2003)

* Músicas do disco “Blunderbuss”

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Apontamento final: Como se percebeu muito bem neste exemplo, concertos de Garage Rock pedem salas em que o contato entre público e artistas seja grande. O local que irá receber os The Black Keys em novembro não é, de todo, o mais apropriado para um concerto deste género

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