| PUBLIC ENEMY | A América contra-ataca com rimas

Os Public Enemy em Londres

Celebra-se este ano um quarto de século sobre a resposta norte-americana à “british invasion” de 1964. A 1 de novembro de 1987, a editora Def Jam promoveu um concerto em Londres. LL Cool J era o cabeça de cartaz. As estrelas, porém, viriam a ser uns novatos do RAP. Eles queriam ser o reverso americano ao que os Beatles e os Rolling Stones foram 2 décadas antes. Mas foram mais além. Assumiram-se de pronto como porta-estandartes de uma cultura de rua emergente nos Estados Unidos e abafaram os artistas que os acompanharam. Esta é a história de uma noite de música, revolta, afirmação e violência.

\\ Documentário vídeo do concerto para ver,via Youtube, no fim do texto

“Londres, Inglaterra, considerem-se avisados”, grita no palco um homem negro de farda militar. Era o mote para uma noite que veio a ser mais, bem mais, do que uma simples noite de concerto no Hammersmith Odeon, da capital londrina. O cabeça de cartaz era LL Cool J, à altura um dos ícones mundiais do Hip Hop. Pelo meio, estavam escalados uns agora discretos Eric B & Rakim. A abrir, surgia um grupo que tinha lançado no início daquele ano o álbum de estreia, “Yo! Bum rush the show”. Chamavam-se Public Enemy e eram uma forte aposta da Def Jam, de Rick Rubin, de subir um patamar na afirmação do RAP como música de intervenção e catalisar a cultura de rua.

O olhar da banda sempre desafiador

Professor Griff, de boina vermelha, é o cicerone dos Public Enemy. É dele o aviso ao público já aqui referido, depois de falsamente ter dito que “a revolução” não ia ser tele-visionada. Foi, para a BBC e para uma edição em DVD, que está também disponível na Internet em jeito de documentário.

“Sentíamos que havia algum desconhecimento na percepção cultural da nossa raça”, afirma Chuck D, um dos pilares da formação dos Public enemy, citado pela UNCUT (edição de maio de 2012). Havia rumores de que a primeiro ministro Margaret Thatcher, a rainha Isabel II e alguns racistas do norte de Inglaterra tinham tentado impedir o concerto. “Vamos para esta digressão britânica como se fossemos para guerra”, lembra-se Chuck D de ter dito antes de embarcar para Londres. E, prossegue, em declarações recentes à UNCUT: “Víamos Inglaterra como o nosso pedaço de carne e nós éramos uns cães esfomeados. Olhávamos para esta digressão como a resposta do que tinha acontecido na América em 64 com os Beatles. Culturalmente, o que fizemos foi uma invasão”, recorda.

“Bring the noise”, Public Enemy
(Chuck D e Flava Flave atuam de graça pelos sem abrigo, no Gladys Park, Los Angeles, 15 jan 2012)

Dos 3 nomes no cartaz, os Public Enemy eram quem vendia menos discos naquele ano, por isso ficaram escalados na abertura. Mas para os membros do coletivo, o escalonamento não podia ter sido melhor. Tinham pela frente um set de 30 minutos em Londres e a aposta era agarra o público pelos colarinhos, olha-lo nos olhos e disparar rimas certeiras ao coração, apelando à ação, à revolta. A plateia rejubilou à entrada, a explosão foi crescendo, não foi imediata. Mas foi forte o suficiente para abalar a recepção aos outros 2 nomes do cartaz.

Há 25 anos "dispararam" sobre os britânicos

A violência que se fez sentir em zonas da plateia do Hammersmith Odeon estendeu-se às ruas de Londres. “Havia demasiada adrenalina. as pessoas percorriam os comboios enlouquecidas: ‘Dá-me o que tens, dá-me o teu dinheiro, dá-me a merda de alguma coisa’. A mensagem retirada do concerto (dos Public Enemy) foi: Esta é a tua vida, tira dela tudo o que puderes. Foi pesado. Eles injetaram energia no público. Energia de rua”, recorda à UNCUT Normski, DJ e produtor de TV, que à altura tinha 19 anos.

No final dos 3 dias de concertos da Def Jam em Londres, que começaram a 1 de novembro, os registos apontam para 60 queixas na polícia e 16 detidos por roubo ou assalto. Ao fim de 2 semanas, 4 polícias ficaram feridos e 1 tinha sido atingido na face com amoníaco. A polícia de Hammersmith requereu a suspensão dos concertos de RAP no Odeon.

Em maio vão andar em digressão pela Austrália

O impacto dos Public Enemy na digressão, então, europeia foi tal que a mesma chegou a estar em risco perante a possibilidade de LL Cool J desistir. E se ele desistisse, todos teriam de voltar para casa. “Ele chegou a ameaçar”, recorda Chuck D: “Era inverno, estava frio, era um território duro e ele não estava confortável fora dos Estados Unidos. Foi um choque cultural para ele. Lembro-me de ter uma conversa com o LL. Abraçámos-nos e concordámos que era fantástico.”

A invasão americana, por oposição à referida britânica de 64, prosseguiu e viria a servir para cimentar a cultura de rua como “mainstream”, algo reconhecido a título mundial. O fenómeno comercial explodiu e os anos seguintes viram nascer muitos projetos na linha dos Public Enemy. E mais tarde houve, inclusive, a aproximação descarada do rock mais pesado ao Hip Hop, de que são grandes embaixadores os Rage Against the Machine. É desta explosão que se fala quando se celebram os 25 anos sobre a estreia dos Public Enemy em Londres. Uma estreia explosiva, que se seguiu 6 meses à dos mais divertidos e descontraídos Beastie Boys e Run DMC. O Hip Hop não mais foi o mesmo. E o Rock também não.

Os Public Enemy continuam ativos. No próximo mês de maio realizam uma digressão pela Austrália, na qual celebram os 25 anos sobre a estreia discográfica ocorrida em janeiro de 1987. Em junho, regressam à Europa. Garantidos estão desde já concertos do coletivo nova-iorquino em França, Bélgica, Sérvia, Holanda e Polónia.

“It takes a nation: The first London invasion tour 1987”, Public Enemy
(DVD, Slam Jamz Recordings, 19 abril 2005)

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Música com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s