| TINDERSTICKS | Um êxito sem necessitar de sucessos

A doce melancolia de uma banda britânica

\\ REPORTAGEM
Há pouco mais de 16 anos, os Tindersticks estrearam-se em Portugal e lançaram o culto na “imensa minoria”. Na última segunda-feira, renovaram os votos. E desta feita, porque as leis assim o obrigam, sem cigarros. Mas com aplausos de pé para uma atuação a rondar os 100 minutos. E, para a qual, nem tiveram de recorrer aos maiores hinos de uma carreira com duas décadas e 9 álbuns editados.

Multi-instrumentista francês na primeira parte

Noite amena em Lisboa. Ainda agora começou a primavera e já se faz sentir o verão. Segunda-feira. Início de semana. Na avenida da Liberdade, em Lisboa, os quiosques estão bem compostos. No antigo cinema São Jorge, hoje sala de espetáculos vários, está marcada a atuação dos Tindersticks, uma das bandas com maior ligação ao povo português que se deixa embrenhar por estas coisas da música alternativa agora denominada Indie. Entramos na sala pelas 21h40. Somos guiados ao lugar marcado por uma das funcionárias do São Jorge. Sentamo-nos. No palco, Thomas Belhom está perto de encerrar a sua atuação. O francês, multi-instrumentista que conjuga samplers feitos na hora com bateria e guitarra, foi o eleito dos britânicos para abrir os concertos da banda na presente “tour”. Esteve com eles também na véspera, no Festival para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira.

“Blood”, início do concerto dos Tindersticks
(São Jorge, Lisboa, 26 março 2012 – vídeo publicado por phwenttoagig)

Começaram às 22h e só pararam Às 23h40

A sala Manoel de Oliveira, o principal espaço do complexo São Jorge, está bem composta. Aqui e ali há uma cadeira vaga. Ouve-se dizer que o concerto está lotado. Às 22 horas, qual pontualidade britânica, os Tindersticks entram em palco. Uns de casaco de fato, dois em mangas de camisa, nenhum com gravata ou outro qualquer adereço. Arrancam com uma recordação improvável: “Blood”, retirada do primeiro álbum, de 1993. “Para onde corre o sangue? Foge de vidas partidas”, lança o primeiro refrão da noite. É de melancolia que se canta. Sentado no escuro, o público aprecia em silêncio os 6 músicos em palco. De 93, saltamos para 99 e para o álbum “Simple Pleasures”. Recria-se a cover de “If you’re looking for a way out”, um original de 1980 dos Odissey. Voltamos a recuar 2 anos. Para 1997. E recordamos “Dick’s slow song”, do álbum “Courtains.”

Interrupção: “O senhor não está sentado no seu devido lugar e estão aqui as pessoas destes lugares. Importa-se de mudar após esta música?”, diz-nos uma funcionária, despertando-nos da hipnose em que estávamos a cair. “Fui colocado aqui por uma colega sua, mas, sim, posso trocar desde que me levante daqui e me sente no devido lugar sem ter de estar à espera”, respondo. “Sim, claro, já volto”, diz-me. Não voltámos a falar. Duas pessoas, que julgo serem os devidos “donos” dos lugares, ficaram sentadas nos degraus que separavam as duas secções de cadeiras da primeira plateia. Chegaram tarde, foram sensatas, preferiram não criar confusão quando a harmonia estava instalada em palco. Obrigado.

“Show me everything”, Tindersticks ao vivo
(São Jorge, Lisboa, 26 março 2012 – vídeo publicado por mcsdlx)

Stuart Staples assume-se como maestro

Stuart Staples, o vocalista, é quem marca o arranque das canções em palco. De guitarra em punho, dá sinal a olhar para o nova-iorquino Earl Harvin, o baterista com escola de jazz que já trabalhou com os The The, Seal ou os Pshychedelic Furs, e que está com a banda de Nottingham desde 2010. O alinhamento do concerto entra, finalmente, em “The something rain”, o novo álbum, lançado em fevereiro e que justifica a presente digressão. David Boulter, o pianista, assume a voz e relata “Chocolate”, um filme sonoro de quase 10 minutos. É um dos momentos da noite.

O público respeita o silêncio que a música dos Tindersticks pede. Rejubila no final de cada tema. Na plateia, o ator Virgílio Castelo e o músico Rodrigo Leão, que já colaborou com Stuart Staples, são mais dois entre tantos admiradores da música dos britânicos. Alguns músicos vão trocando de posições no palco. A música mantém-se sedutora. A harmonia conjugada com a voz grave de Staples é hipnotizante. Quase de uma assentada e pela ordem respetiva, oferecem ao vivo os 4 primeiros temas de “The Something rain”. Segue-se um salto a 2001 e ao álbum “Can our love…”. Ensina-se a amar.
Retoma-se “Simple pleasures”, com “I know that loving”.

Setlist oficial

Mais 3 músicas de “The Something rain” e Stuart Staples anuncia que está completo o “set” principal do concerto. Despede-se 70 minutos após o início. Regressa pouco depois para um primeiro “encore”, solicitado de pé pelo rendido público. Um chorrilho de números desvenda “4.48 psychosis”. Junta-se-lhe um medley de “Cherry blossoms” (1995) e “Factory girl” (2010). Novo adeus. Nova rendição de pé, por parte da plateia. Novo regresso. E o fecho de “The something rain” através de “Medicine” e do derradeiro tema do álbum, “Goodbye Joe”, com a oferta pelo meio de “If she’s torn”, de “Simple leasures” – o único tema da noite onde Staples se liberta de instrumentos e apenas faz uso da voz.

Acendem-se as luzes. É tempo de um cigarro. Nas traseiras, Rodrigo Leão espera um encontro não combinado com Staples. David Boulter, o guitarrista Neil Fraser e o baterista Earl Harvin apanham fresco. Um segurança faz cara de mau a quem passa, tentando intimidar qualquer tentativa de aproximação. Não é necessário. Estamos satisfeitos. Os músicos também parecem estar. É hora de regressar a casa. Fica para a história mais um belo concerto de Tindersticks. O primeiro em que não ouvi “City sickness”, porventura o maior sucesso da carreira do grupo. 16 anos de vida em comum e ainda com sorrisos de parte a parte após cada reencontro.

“Medicine”/ “If she’s torn”/ “Goddbye Joe”, fecho do concerto dos Tindersticks
(São Jorge, Lisboa, 26 março 2012 – vídeo publicado por mcsdlx)

Mais informação:
Notícia da edição do novo álbum
Site oficial dos Tindersticks

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2 respostas a | TINDERSTICKS | Um êxito sem necessitar de sucessos

  1. Miguel Silva diz:

    O primeiro concerto de Tinder acontece em 1991, aquando de um evento de dinamização da já extinta rádio XFM. O concerto foi na Aula Magna. Num calor imenso, é apresentado First, o primeiro álbum de Tindersticks. Estava dado o primeiro passo para vinte e um anos depois actuarem no São Jorge. Quem diria … vinte e um anos depois … oxalá que assim continuem.

    • Olá, Miguel.
      Obrigado pelo teu comentário, antes de mais. Mas, se me permites, deixa-me corrigir-te: o concerto dos Tindersticks em Portugal, numa operação de charme a favor da XFm, aconteceu a 26 de setembro de 1995 e não de 91 como escreves. Vieram apresentar o segundo álbum, que tal como o primeiro era simplesmente homónimo da banda.
      91 é, sim, o ano de formação dos Tindersticks.

      Abraço.

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