| WRAYGUNN | “Uma manta de retalhos que faz muito sentido”

Álbum lançado a 12 de março

Foi lançado segunda-feira, dia 12 de março, “L’art brut”. É o quarto álbum da banda de Paulo Furtado, Selma Uamusse, Raquel Ralha, Sérgio cardoso, Pedro Pinto e João Doce. Ao FrankMarques’blog, numa parceria com a MUDA Magazine, o grupo de Coimbra contou a história do novo disco e revelou as expetativas que o rodeiam. De resto, já têm concertos marcados em França e para o final do ano está prevista a apresentação em Londres.

FrankMarques – Porque demoraram 5 anos entre “Shangri-la”, o terceiro álbum, e este “L’art brut”?
Selma Uamusse
– A culpa é do Tigerman.
Paulo Furtado – A culpa é minha (risos). Fazer discos de Tigerman era sempre entre discos de Wraygunn e nunca tinha tempo para fazer a promoção até ao fim nem os concertos internacionais que queria. Nunca conseguia fazer as coisas exatamente como queria. Fazia os discos um pouco à pressa. E (esta paragem) tinha sido já combinada com a banda. Pedi um “intermezzo” de 2 anos para fazer o “Femina”. As edições e as “tournées” internacionais acabaram por tornar este intervalo um pouco maior do que era previsto. Apesar de termos entrado pela primeira vez em estúdio um pouco depois….
SU – Em 2010?… No verão de 2010…
PF – …Há cerca de ano e meio. Mas começámos a trabalhar um bocadinho antes. Mas, por isso, é que as coisas demoraram tanto. Eu acho que a chama que espoletou o voltarmos a trabalhar juntos foi o ter recebido uma canção muito bonita da Raquel. Foi a primeira canção que começámos a ensaiar.

“Don’t you wanna dance?”, Wraygunn
(“L’art brut”, Arthouse/Compact Records, 12 março 2012)

Foi a música que apresentaram em Janeiro de 2011, nos concertos de Tigerman nos Coliseus (“Kerosene honey”)?
PF
– Não. Embora essa também seja da Raquel. Curiosamente as duas primeiras canções do álbum foram da Raquel: letra e música. (n.: A música de que se falava era, sim, “Track you down”)
SU – Mas… tocamo-la ainda em Coimbra…
PF – Sim, tocamo-la em Coimbra. E… a partir daí foi quando sentimos que ainda fazia sentido estarmos juntos. Musicalmente, tínhamos coisas para dizer e a partir daí começámos a trabalhar com mais afinco. Apesar de termos gravado em dois períodos separados no tempo. Foi muito bom. Todos trouxemos coisas novas para a banda.
SU – E eu não teria tido oportunidade de fazer as coisas que fiz, de ter sido mãe (n.: Selma é mãe de uma menina e está grávida de outra). Os 2 anos (de paragem) foram aceites com muito conforto. E o período que veio a seguir também foi importante para todos nós podermos digerir algumas coisas e nos reencontrarmos musical, profissional e emocionalmente. Foi extremamente positivo para os Wraygunn e é uma das principais razões para que o novo disco seja tão pessoal e introspetivo. Seja nas composições do Paulo, nas letras e canções da Raquel ou na sonoridade de toda a banda.

“Keroseen honey”, Wraygunn
(ao vivo no Coliseu do Porto, 21 de janeiro de 2011, concerto de The Legendary Tigerman)

A maior parte das músicas têm o título na primeira pessoa. É um disco de alguma forma autobiográfico?
PF
– Há sempre alguma autobiografia nas minhas letras e nas da Raquel também. A Selma… terá de ser ela a dizer. Mas existe sempre alguma alteração nessa autobiografia. São histórias que partem do eu, mas que podem generalizar-se. Penso que há também alguma proteção dos relatos verdadeiros, dos acontecimentos. Mas, sim, o primeiro momento é autobiográfico. Depois é um pouco desconstruído e deixa de ser tão autobiográfico.
SU – Há a questão do eu na escrita das letras, mas se calhar aquilo que leva as pessoas a sentirem-no um bocadinho mais pessoal é o próprio ambiente envolvente das músicas. Não tem necessariamente de ser um relato do que se está a passar connosco, mas de experiências pelas quais já passámos ou vimos outras pessoas a passar. Penso, acima de tudo, que este disco vive muito de um ambiente intimista. E, mais do que nas letras, dos ambientes que são criados a nível musical, que carregam este sentido mais pessoal. É propositado.
PF – É um disco onde se contam muitas histórias. Em que a palavra tem o seu papel.

Foto partilhada por Paulo Furtado no Facebook

Cada música tem vida própria ou o álbum resulta num todo, como um filme?
PF
– Este foi um disco muito despreocupado nesse aspeto. Estivemos a tentar fazer as contas de quantos dias passámos em estúdio e na realidade penso que estivemos 10. Tivemos dois períodos de 5 dias. Com ensaios pelo meio, mas em estúdio e gravações, efetivamente, tivemos 5 dias na primeira fase e outros 5 na segunda. Eu costumo ser um pouco obcecado pelos conceitos e antes de os discos estarem terminados já tenho uma ideia mais ou menos do que quero, de como quero arranjar o disco e de como se vai chamar. Desta vez, porém, deixámos as coisas correr mais livremente e nesse aspeto (o disco) é uma manta de retalhos. Mas uma manta de retalhos que faz muito sentido. Fomos trabalhando as músicas que nos diziam mais. E nos interessavam mais. Se calhar é por isso que o disco pode ter mais músicas calmas do que alguma vez um disco de Wraygunn teve. Tivemos a coragem de realmente seguir aquelas músicas que nos davam mais prazer e ser muito egoístas no modo como trabalhámos. Principalmente, este disco é feito para nós. Se calhar, mais do que qualquer outro. Como banda, estávamos efetivamente a precisar de fazer algo exclusivo para nós. Mas, obviamente, depois disto tudo queremos que as pessoas gostem e se identifiquem com isto. A arte também têm de ser egoísta para ser verdadeira, não é?

Existe um carinho especial em França pelos Wraygunn ou é uma consequência de o próprio Paulo Furtado ter andado muito pelo país?
PF
– Não sei…
SU – Eu sinto-me muito acarinhada em França (risos)… Como é óbvio, há muito terreno que foi desbravado pelo Paulo. Mas é um trabalho contínuo, que já vem de há muito.

O regresso do sexteto de Coimbra

Hoje em dia existem uma série de estratégias para evitar a pirataria. Para este disco, têm alguma coisa especial pensada?
PF
– Sei lá. Acho que o disco é lindo e em si é uma obra de arte. É constituído por fotografias maravilhosas do André Cepeda feitas em grande formato. Se formos a pensar, cada “chapa” custa para aí 80 euros. As pessoas quando estiverem a pensar no custo do disco podem pensar nisso também. É um fotógrafo português fantástico. E tem ilustrações do Artur, que é também um artista plástico português fantástico. Todo o objeto é feito de um ponto de vista artístico e não de marketing.
SU – É o nosso código de segurança (risos).
PF – Não sei o que posso dizer mais. Se calhar, o que estamos a fazer no lançar o disco: A cada pessoa que o comprar na FNAC, nós oferecemos o bilhete para um dos espetáculos de apresentação (ver lista nacional no rodapé). Isto, obviamente, também é um grande esforço da nossa parte e da editora para tornar a vida mais fácil às pessoas. Pelo preço de um bilhete ou de um disco, podem ter as duas coisas. Acho que é tudo o que temos para dar a partir daqui. É para aqueles que queiram ter o disco e têm algum carinho por objetos originais, como nós temos. Não há muito a fazer se não tiverem (esse carinho).

Onde é que esperam chegar com este “L’art brut”? Ultrapassar o sucesso de “Eclesiaste 1.11”, o segundo álbum, que foi eleito disco do ano em França há 9 anos?
SU
– O disco não foi feito a pensar nas expetativas. Mas claro que, enquanto pessoas, artistas e músicos, depois de sairmos da nossa bolha, o céu é sempre o limite. Daí fazer todo o sentido digressões nacionais, internacionais, interplanetárias, intergalácticas (risos)… A expetativa é que as pessoas consigam digerir este disco tal como nós temos vindo a digeri-lo. Penso que é um disco que não se ouve nem à primeira nem à segunda. Se calhar, será um daqueles que primeiro se estranha, depois se entranha. E esse “loop” pode ser muito saboroso e interessante de se fazer. A minha expetativa pessoal é que as pessoas consigam chegar a um estado de paixão por aquilo que estamos a fazer ou pelo menos a metade daquilo que nós entregámos a faze-lo. E podem esperar de nós, enquanto banda, concertos igualmente efusivos. Se calhar com dinâmicas mais contidas, mais extensas. Mas com a mesma energia, alegria e explosão que tanto caraterizam os Wraygunn.
PF – Há já uma grande vitória que estamos a alcançar: Há tantos anos que fazemos discos e, neste, todos achamos que é o nosso melhor. Aí há uma vitória. Mas essa é a parte que depende de nós. A partir daqui, já não depende de nós, mas de um milhão de fatores que, infelizmente, nós não controlamos.

Qual foi a inspiração para o primeiro videoclip do disco, “Don’t ya wanna dance”? Os Ok Go?
PF
– Nem vi os dos OK Go. Na realidade, aquilo foi ao dobro do tempo real. Eu ando um pouco obcecado por planos de sequência. Este videoclip foi realizado por mim, mas fiz também uma curta-metragem há pouco tempo em plano de sequência. Acho que a minha linguagem é o plano de sequência. Na realidade filmámos isto ao dobro da velocidade. É um plano de sequência que durou na realidade 1 minuto e 30 e depois é posto nos 3 minutos e qualquer coisa da música.

\\ VIDEOCLIP
Don’t ya wanna dance”, Wraygunn
(Realização: Paulo Furtado/ Fotografia: Jorge Quintela)

\\ Este artigo é apenas um excerto da extensa entrevista exclusiva concedida por Paulo Furtado e Selma Uamusse ao FrankMarques’blog, numa parceria com a MUDA Magazine. A entrevista completa poderá ser lida muito em breve ou vista, em formato vídeo, na aquisição da edição em DVD da MUDA de Abril/Maio.

Próximos concertos dos Wraygunn:
17 de março, sábado, 22h30 – Lux, Lisboa
22 de março, quinta-feira,22h – TAGV, Coimbra
23 de março, sexta-feira, 22h – ACERT – Tondela
24 de março, sábado, 22h30 – Hard Club, Porto
4 de abril, quarta-feira, 19h30 – La Flèche d’Or, Paris, França
5 de abril, quinta-feira, 19h30 – L’Aeronef, Lille, França
6 de abril, sexta-feira, 19h30 – Cool Soul Festival, La Rochelle, França
7 de abril, sábado, 19h30 – La Sirene, Paris França


Facebook oficial dos Wraygunn

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