| RIVERSIDE BLUES FEST | O Tejo já tem o seu Muddy Blues

Fast Eddie Nelson & Phil D

Um festival de Blues realizado em Portugal, só por si, já merecia destaque. Por ser de dois dias, muito mais. O que se passou este fim de semana no Barreiro fez história e criou raízes. Viram-se um documentário sobre o rock em Portugal e sete concertos. Harmónicas, guitarras, vozes roucas, “pin ups” e comunhão. De artistas e músicos. Fast Eddie Nelson foi rei da primeira noite, mas sem tirar brilho aos estreantes The Holygators.

Foi digno de se ver. E de aplaudir. A primeira edição do Riverside Blues Fest acabou em celebração, garante quem lá esteve até aos últimos acordes. O primeiro dia, e único em que me é possível reportar devidamente por motivos profissionais, foi de celebração. O festival deu o primeiro passo para a sua afirmação. E foi um passo seguro. Começou com a projeção do documentário “Meio metro de pedra”, de Eduardo Morais, que fala da progressão do rock em Portugal desde os anos 60. Por ele passam, entre outros, os Capitão Fantasma, Tó Trips, Adolfo Luxúria Canibal e Nick Nicotine.

Mike Styles abriu o Riverside Blues Fest

O filme estende-se por quase hora de meia. O público demora a chegar à Piscina Municipal do Barreiro, onde se situa a Associação de Reformados do Barreiro, que ser ve de anfitriã ao festival. Na televisão passava um jogo do Benfica, o que também pode ter contribuído para o atraso do povo. Às 23h30, Mike Styles deu os acordes de saída para o Blues Fest. As melodias e as vocalizações a entoar Bob Dylan são a imagem de marca deste jovem músico barreirense. Na plateia até crianças se mostravam atentas ao que se passava em palco. Um “gig” a rondar os 40 minutos, com a habitual versão de “Tambourine man”, assinalou a passagem de Styles, que ficará para a história como o primeiro de sempre deste novo festival.

The Holygators surpreenderam

Seguiu-se, pelas 00h15, o segundo projeto da noite. Oriundos de Lisboa, com experiência em diversos grupos, mas a tocarem juntos em palco pela primeira vez, os The Holygators deram uma bela amostra de Blues e Rock ‘n’ roll da garagem. Cru, ingénuo, honesto, divertido. Houve até uma arriscada versão de “Creep”, um original dos primórdios dos Radiohead. Perto do final, espaço para uma surpresa e uma nova estreia: pela primeira vez num palco, Eva assumiu o microfone e depressa se libertou do nervosismo, revelando um timbre orelhudo, embora a necessitar de mais algum trabalho de dicção. O primeiro passo, pelo menos, está dado. Regressou o vocalistaoriginal para uma nova “cover”. Desta feita, “Tequilla”, popularizada pelos The Champs. E, para fechar, ainda outra: “Got my Mojo workin'”, de Muddy Waters. “Agora vem aí um homem à séria, um gajo que sabe”, atirou o vocalista dos Gators, referindo-se a Fast Eddie Nelson, organizador do evento e o cabeça de cartaz do primeiro dia do festival. Podia pensar-se em conflito de interesses, nesta opção, mas há que lhe reconhecer o mérito nestas andanças.

A estreante Gator, Eva

Fast Eddie, ou apenas Eddie de acordo com o cartão que ostentava ao pescoço, fez-se acompanhar em palco por Phil D, baterista que o tem acompanhado em alguns dos últimos concertos. À introdução através de “Driftwood” seguiu-se “Carry me home”, ainda sozinho em palco. Depois, chamou o compincha e arrancaram para um “set” que cobriu a carreira a solo de Fast Eddie, mas também o projeto Riverside Monkeys, com a plateia a responder da melhor forma ao que poderiam ter sido “hit-singles” deste período, houvesse justiça: “Baptize me in wine” e “Another drinking song.”

As botifarras de Fast EddieA boa disposição em palco já é imagem de marca deste Bluesman português. Mas a satisfação pela boa adesão ao novo festival acentuou-a na sexta-feira. A promessa de uma segunda edição do Riverside Blues Fest ficou praticamente prometida. E o artista, que é um bom artista, deu mais um excelente concerto para o currículo, com o qual, garantiu, terá deixado bem mais feliz um tal de To-Zé Brito, atual administrador da Sociedade Portuguesa de Autores, que arrecadou uma boa fatia da receita do festival. Pronto, ok, Fast Eddie até tocou umas versões alheias, como o “Come together”, dos Beatles, e pagou também por isso.

Perspetiva ainda no início da primeira noite

A primeira noite acabou em festa e com uma sensação de dever cumprido por parte da organização. Bem mais de 100 pessoas tinham marcado presença para ver e ouvir Blues “made in” Portugal.

A segunda noite, sábado, arrancou com a prestação de Little Johnny Jewel, da qual apenas conseguimos assistir aos dois últimos temas. Já a atuação de Lightnin’ Johnny foi acompanhada quase na íntegra – pelo até os afazeres de uma noite de Troca Discos umas centenas de metros ali ao lado o permitiram. Um pouco atabalhoado, mas humilde, o músico de Lisboa cativou pela empatia que conseguiu criar, mesmo quando a “tábua” de efeitos que tinha aos pés teimava em não lhe corresponder. De guitarra, de harmónica, com “samplers” dos efeitos, Lightnin’ Johnny foi certamente um dos destaques numa noite em que iriam ainda atuar Hell Hound, músico que havia concedido uma entrevista ao FrankMarques’ Blog, mas que não conseguimos ver, e os The Sullens, projeto rock do Barreiro que, garantiram-nos, fecharam da melhor forma este primeiro Riverside Blues Fest. Para o ano, permita a Troika, os seus “amigos” portugueses e o ToZé Brito, haverá mais!

“The innocent”, tema do primeiro disco de Fast Eddie Nelson, “Riverman”
(Experimentáculo, Junho 2011)
Autoplay

O cartaz do Riverside Blues Fest ’11

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