Alive’11 (2.º dia): Seasick Steve brilha no dia dos Stooges

Seasick Steve Alive 2011

Natural de Oakland e com cerca de 70 anos (nem o próprio deve saber em que dia nasceu), foi a grande revelação do segundo dia do Alive. A banda de Iggy Pop deu um belo concerto, mas merecia um público mais culto, não tão comercial. É que a maioria só estava ali para ver os Foo Fighters e isso sentiu-se. Reportagem no único dia possível para o FrankMarquesBlog

Trânsito nada caótico nas zonas limítrofes do Festival Alive. Até estranhamente tranquilo tendo em atenção relatos de outros anos e mesmo do primeiro dia do evento. Ainda antes das 18h estávmos dentro do recinto e bem a tempo para assistir à estreia em Portugal de Steven Gene Wold, um bluesman oriundo de Oakland, onde nasceu algures em 1941. No palco, no secundário, estavam ainda a actuar os Everything Everything, indie-rock igual a tantas outras coisas, mas sem aquele toque que os poderia distinguir dos demais. Ao lado do palco, o senhor Wold, sentado, assistia e distribuía autógrafos, e ainda aceitava tirar fotos com enorme simpatia. Diz-se que ele, em pequeno, andava sempre com maleitas e isso levou-o a “transformar-se” em Seasick Steve, músico autodidacta que começou a tocar guitarra para ganhar a vida.

Às 18h55, como mandava no horário, Seasick Steve entra em palco. É acompanhado na bateria pelo nórdico Dan Magnusson, também de cabelos grisalhos, ar de bom amigo e dono de um café na Suécia. Garrafa de vinho tinto aberta, sentado e de guitarra em punho, Steve arrancou para uma actuação soberba. Pelo meio contou o que pareceu ser a sua história de vida. Não conheceu os pais verdadeiros e o pai adoptivo batia-lhe. Pensou matá-lo, chegou a pegar numa arma, mas ficou-se por sair de casa e dedicar-se à música. Nunca tinha estado em Portugal, mas há coisa de 10 anos descobriu que tinha um avô português. “Ele é dos ‘Azores’ e chamava-se De Melo”, contou a sorrir para as palmas da assistência, já conquistada pela simpatia e mestria no domínio das cordas de guitarra. Foram três as que foi alternando. Adaptações pessoais do tradicional instrumento de cordas. Uma feita a partir de uma caixa de cigarros; outra com base num simples tronco de madeira, com uma caixa de milho em conserva, uma “manete” de um Chevrolet e apenas uma corda (vídeo seguinte); e a terceira, mais clássica, mas apenas com três cordas porque as outras partiram-se e ele ainda não as tinha conseguido substituir.

A meio da actuação, Seasick teve um momento mais romântico e escolheu uma rapariga do público para se sentar a seu lado no palco, enquanto cantava para ela. Foi o tema mais calmo do alinhamento. A tenda, ao género de hangar para guardar aviões de grande porte, encheu-se rapidamente e, a reboque de uma enorme simpatia, simplicidade e rock’n’roll das margens do Mississipi, o norte-americano tornou-se na figura do dia antes mesmo dos grandes “tubarões” da noite. Foi impensável abandonar aquele espectáculo para espreitar o que se passava no palco principal onde os Jimmy Eat World (ouvi dizer ter sido um pouco aborrecido) davam lugar aos My Chemical Romance (banda rock protegida pelas rádios comerciais, mas com muito pouco de realmente cativante), que acabámos por espreitar após o final de Seasick Steve.

Regressámos ao palco secundário, aquele onde a noite prometia ser melhor à excepção de Stooges e, vá lá, Foo Figters, que eu simpatizo muito com o Dave Grohl. Tocavam os Bombay Bicycle Club, por esta altura. Pareceram sofrer do mesmo mal dos Everything Everything. Com aparência de banda indie à la Vampire Weekend – meninos bem comportados – mês sem um pingo que os distinga dos demais apesar do nome associado à India. De indianos nada têm no som. Aproveita-se para comer e gastar mais uns gordos euros neste mega negócio que são os festivais. 4 euros por uma sandes de porco no espeto ou por um hamburger? É roubo e à descarada. Para já não falar das imperiais a 2 euros ou da água de 0,20lt a 1,5 euro. Enfim… adiante!

Pelas 21h15 arranca o grande nome da noite no palco secundário. Os Primal Scream estão de volta a Portugal depois de uma brilhante passagem há uns anos por Paredes de Coura. Desta feita, trazem no alinhamento todo o álbum “Screamadelica”, de 1991. Um disco que faz 20 anos, mas que podia muito bem ser deste ano. E soaria a novo. Som dançável, sem pastilhar, com excelente receptividade do público. Alinhamento de 11 músicas, que apenas trocou “Inner flight” e a dub version de “Higher than the Sun” do álbum em revista pelos incontornáveis “Jailbird” e Rocks”, que fecharam um concerto muito bem-disposto. Mais um dos Primal Scream em Portugal.

Segue-se o nome que mais esperava deste dia: Iggy & the Stooges. Não é fácil chegarmos à frente e tentar ficar a uma distância que permitisse, sem recorrer ao ecrã gigante, destrinçar as caretas do sexagenário com energia de adolescente. A plateia estava repleta e cedo se percebeu que era pela criançada ávida de ver e ouvir os Foo Fighters. Quando tomei conhecimento do cartaz do festival critiquei no facto de se dar maior importância a bandas como os 30 Seconds From Mars ou os os Duck Sauce. Agora reparo as minhas palavras e defendo que os Stooges tinham sido mais respeitados se actuassem no palco secundário, onde Iggy poderia brilhar mais junto do público. “We’re not a comercial band”, fartou-se de gritar o vocalista, em jeito de aviso para os ‘putos’. E não foram. A meio da actuação atirou: “Radio is a lie”. E dei por mim a pensar na última vez que teria ouvido Stooges (ou mesmo Iggy Pop) na playlist de uma rádio (sem contar, obviamente, com os cada vez mais raros programas de autor). Não me lembro. O ‘gajo’ tem razão: a rádio em Portugal é uma mentira.

70 minutos, mais coisa menos coisa, é a duração do espectáculo dos Stooges. Iggy é o último a sair de palco, deixando-se ficar aparentemente a ‘flirtar’ com a assistência (ou seria o contrário?). A banda não pareceu ficar muito satisfeita. Eu não fiquei, mas não por eles, antes pela falta de entrega de um público que tem fama e gosta de se gabar de ser dos melhores. Com estes ícones do punk-rock não foram. “No fun”, o tema que encerrou o concerto, foi quase como uma constatação, um balanço final. E isto mesmo depois de Iggy se ter esforçado como só ele, aos 64 anos, parece conseguir. Mesmo com a perna esquerda mais curta cerca de 3cm que a direita e ainda um problema na coluna. Pelo contrário, os restantes Stooges sentiram o peso da idade e mantiveram-se mais estáticos. É que também já lá vão 40 anos de carreira.

Pela meia noite e meia chega finalmente o momento por que esperava a maioria dos presentes. Dave Grohl, ao que parcee, andou a passear descontraidamente pelo recinto durante à tarde. E à noite, numa contradição de que tanto gosta, assumiu a condição de estrela. O som é que não esteve pelos ajustes. Depois de ter ido visitar o palco secundário, voltar foi tarefa difícil. Fiquei mais longe e com dificuldade para escutar devidamente os temas dos Foo Fighters. Grohl alicou-se, correu de um lado ao outro, gritou, puxou pelo público, cantou os maiores sucessos e as novas músicas bem rockeiras, mas o som não ajudou a chegar a toda a gente. Foi pena. Decidimos regressar ao palco secundário e espreitar os Teratron, com Adolfo Luxúria Canibal. Assistência a bem menos de meio gás e um portento sonoro bem acima do limite máximo para o espaço. Um baixo pujante e um Adolfo corrosivo, acutilante, ilustrados com uma banda desenhada excelente nos ecrãs gigantes. Aqui o problema foi realmente aguentar a pujança do som, muito agressivo para os ouvidos de uma assistência diminuta. O que se viu dá para elogiar. Foi um bom concerto dos Teratron, que mereciam bem mais gente a assistir. Por volta das 2h20 e ainda com os Foo Fighters em palco (tocaram mais de duas horas, ouvi dizer), foi tempo de recolher ao “ninho”. O dia ficou ganho, acima de tudo, com Seasick Steve, Iggy & the Stooges e os Primal Scream.

Teratron Alive 2011

Esta reportagem foi feita sem qualquer colaboração da Everything is New, promotora do evento. Todas as bebidas e sandes consumidas foram pagas. Não tivemos acesso a qualquer varanda VIP com buffet. Foi investimento sem retorno além das recordações. Que são boas.

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Uma resposta a Alive’11 (2.º dia): Seasick Steve brilha no dia dos Stooges

  1. Cristiano diz:

    Boas,

    Concordo contigo em muitas das coisas! e é verdade… é dificil andar pelo recinto de forma a chegar um pouco mais à frente ( eu que o diga que desde os Xutos que tentei ir para a frente acabando na 1ª barreira a uns bons 15m do palco apenas quando começou os Foo.
    Começo pelos Jimmy Eat World. Apesar de muito competentes é verdade que podiam ter comunicado muito mais e ter ousado/diversificado o seu reportório, mas gostei. Do mesmo já nao posso dizer de MCR. A musica que fazem é melhor quando acompanhada por um bom som e julgo que sofreram um pouco por isso, ainda para mais quando podiam ter percorrido mais o 1º album, na minha opiniao, o melhor deles.
    No meio desta actuações ainda tivemos tempo para ir ver o Seasick Steve e posso dizer que gostei, ainda apanhei os ultimos 20/25 m do concerto e fiquei com muito boas impressões! Afinal vale mesmo muito mais ao vivo! ” A lingua portuguesa é linda, apesar de nao perceber um boi dela” disse o mesmo!
    Os Xutos estiverem sempre bem (é normal dizer isto , nao é?) mas também é dificil nao gostar!

    Quem esteve também muito bem foi o Iggy. Apesar de não conhecer grande parte do seu reportório, penso que teve uma entrega total assim como os restantes membros, e aqui tambem tenho de concordar contigo, o publico nao ajudou muito, quer pelo desconhecimento quer pela mais desejada chegada de Foo.
    E vejo chegado o grande momento da noite, os Foo Fighters!!!. Uma grande actuação com cerca de 2h e 30 m de concerto, sendo que 2 delas foram seguidas. uma passagem pelo reportorio era obrigatória para a satisfação dos fans, ainda que o Dave nao se lembrasse da ultima vez que cá tinha estado!. Apenas ficou a faltar uma musica “I Should have Known” , mas claro esta era eu que queria………..

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