Morreu Poly Styrene (1957-2011): A última entrevista para Portugal

Morreu aos 53 anos

A vocalista dos X-Ray Spex tinha anunciado sofrer de cancro poucas semanas antes de responder, por e-mail, às perguntas que lhe enviei. Falou com o coração sobre a sua vida, a filha e o novo álbum. Revelou o sonho de um dia visitar Fátima e tocar no nosso país. Não os concretizou. A 25 de Abril, a mítica e revolucionária porta voz do punk britânico sucumbiu ao poder devastador de um tumor cancerígeno na mama. Ela bem lutou, mas a doença foi mais forte. Leia na íntegra uma das últimas entrevistas concedidas pela britânica. Um exclusivo FrankMarquesBlog/ MUDA Magazine.

A origem de Poly

FrankMarques – Assumiu o nome Poly Styrene nos X-Ray Spex a partir de uma marca têxtil que produziu em adolescente. Porquê?
Poly Styrene – Sim, é verdade, tive uma marca chamada Poly Styrene. Eram praticamente só acessórios. O meu “manager” da altura decidiu colocar-me Poly Styrene como o nome de palco. Perguntei-lhe se vinha nas páginas amarelas e só depois da resposta dele aceitei.

Gostou do som do nome ou significava alguma coisa mas para si?
Gostei do som do nome. Era divertido e também servia para o que eu estava a escrever e a comentar na altura: a tendência consumista. Muitas outras pessoas daquela época respondiam por pseudónimos. Gente como o Johnny Rotten [Sex Pistols], Judy Nylon [Snatch], Captain Sensible [The Damned]…

As pessoas ainda a recordam muito como a vocalista dos X-Ray Spex. Voltaram a dar um concerto em 2008, no Roundhouse, em Londres. Nos seus concertos a solo ainda canta temas dos X-Ray Spex?
Sim. E vou continuar a cantar quando puder voltar a actuar.

Sente de alguma forma que o tema “Oh Bondage, up yours” ainda é actual?
Penso que sim. Acho que ainda há muitas raparigas que desejam encontrar a sua voz e tem algo importante para dizer.

Concerto X-Ray Spex no Roxy, Covent Garden

“Tudo se resume a uma curva de aprendizagem”

A sua vida pessoal não tem sido fácil. Quando ainda estava nos X-Ray Spex começaram os sintomas da bipolaridade. Quando retomou a banda em meados de 90, teve um acidente. E agora o tumor. Como é que ultrapassa tudo isto e se mantém positiva?
Tento apenas ver o que de bom tem a vida. Tudo se resume a uma curva de aprendizagem e há uma lição para ser aprendida a cada experiência.

Os tratamentos estão a correr bem?
Estou a receber todos os tratamentos que estão disponíveis. Tanto convencionais como naturais. E tenho esperança que todo este esforço tenha bons resultados assim como espero manter uma mente tão positiva quanto possível.

Aos 15 anos, saiu de casa. E só voltou aos 18. O que andou a fazer nesse período. Como vivia?
Eu vivi nas regiões onde se realizavam diversos festivais de música pop e também numa comunidade em Bath, Reino Unido. Foi um período muito positivo da minha vida no que toca a criatividade.

É verdade que viu um OVNI?
Sim, eu vi um OVNI. Mas isso não quer dizer que tenha visto uma nave espacial. Era simplesmente um objecto voador não identificado. Era cor-de-rosa. E outras pessoas também já tiveram esta experiência de verem uma luz rosa.

O que nos pode contar da experiência com os Hare Krishna? É algo que aconselha?
Penso que é uma filosofia bonita e pura. Mas, como em tudo, temos de ter muito cuidado. Temos de tentar olhar para os Hare Krishna com um olho no que é bom e outro no que é mau. É que nem todas as pessoas ali têm as mesmas motivações.

Não sabemos muito sobre Mary Joan Elliot-Said. Mas Poly Styrene é uma personagem desafiadora e que transmite coragem e esperança. Quais são os seus maiores receios para os tempos mais próximos?
Os meus maiores receios prendem-se com as guerras por causa do petróleo, a água e a comida. Temos de encontrar uma forma de equilibrar o Mundo através da ONU. Quem sabe, através da partilha dos vários recursos naturais do planeta. De outro forma, o Mundo vai tornar-se insustentável.

A filha Celeste com a mãe Poly

“Ainda não sou avó”

Em Dezembro lançou uma música a meias com a sua filha: “Black Christmas”. Qual foi o objectivo?
Nós escrevemos o “Black Christmas” num dia de Natal. São coisas que surgem quando estamos juntas. É muito fácil e espontâneo aparecer assim ideias musicais. Nesse dia, estávamos a divertir-nos, mas aconteceram uns assassinatos em Los Angeles. A recessão já tinha começado e eu também quis comentar o facto de o Natal, para além de época festiva, ser também um período para introspecção e reflexão sobre a triste história do nascimento e morte de Cristo.

A sua filha, segundo revelou, tem sido o seu maior apoio. Ela também tem uma banda, os Debutant Disco, e dá aulas em Madrid, onde vive. Já é avó?
Temos uma excelente relação. Ela está em Madrid, é casada, mas não tem filhos, por isso, não, ainda não sou avó.

Ela participou na realização de “Generation Indigo”, o seu novo disco a solo?
Sim, participou. A Celeste fez parte da letra da música “Kitsch” e são dela também os coros noutras duas, “White Gold” e “No Rockefeller.”

“Este disco é uma celebração da cultura jovem”

Regressa aos discos em boa forma e ao mesmo tempo revela ao Mundo que está a atravessar a batalha de uma vida. Há alguma relação entre o disco e a doença que a afecta?
Não, não houve qualquer relação entre a produção do meu álbum e o cancro. Eu só fui diagnosticada um par de meses depois do álbum estar pronto.

Este é um disco com algumas críticas a aspectos negativos destes novos tempos, como obsessão dos mais jovens pela Internet. Mas é também um disco com ritmos alegres. Pode explicar esta aparente dualidade?
Certamente não estou a criticar a nova geração. De facto, até realço no disco que há aspectos muito bons em relação a estes jovens. Este disco, pode dizer-se até, é uma celebração da cultura jovem. Daí o título do álbum, “Indigo Generation”. Fala da geração que agora tem vinte e tal anos. Cada música foi feita como uma peça individual e, por isso, não se pode falar de dualidade neste disco.

As letras, ainda assim, continuam a revelar um lado crítico. E são actuais. Mantém-se a par do que se passa no Mundo, em Inglaterra, na Líbia, em Portugal?…
Eu tento manter-me a par do que se passa e é muito triste o que se passa, por exemplo, na Líbia neste momento. Deviam ter deixado o Kadafi sair em segurança do País quando ele o pediu em vez de o encurralarem numa vingança. E agora, por isso, ele só quer rebentar com os tanques de petróleo na Líbia e prejudicar o seu próprio povo. É uma verdadeira tragédia!

Encontrei duas explicações para o termo “Generation Indigo”. Para si, o que representa o título deste novo disco?
O título refere-se à “geração Indigo”. É a geração que vai mudar o Mundo para melhor e torná-lo mais pacífico. Eu acredito que o vão conseguir. A minha filha Celeste faz parte dessa geração.

Gostaria de poder actuar em Portugal
O novo disco merece uma boa digressão. Pelo que percebi teve de suspender os concertos já marcados. Quando poderá haver novidades sobre esse tema?
O que posso dizer, para já, é que não haverá novidades enquanto eu estiver a tentar livrar-me do cancro.

Conhece Portugal? Já actuou cá alguma vez?
Nunca estive sequer no vosso país. Mas gostava muito de o visitar e, especialmente, ter a oportunidade de ir a Fátima.

É possível que venha a mostrar este novo disco nos palcos portugueses?
Claro. Quando puder voltar a tocar ao vivo, gostaria de poder actuar em Portugal.

Crítica ao novo disco de Poly Styrene, “Generation Indigo”
Entrevista publicada na MUDA Magazine

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Uma resposta a Morreu Poly Styrene (1957-2011): A última entrevista para Portugal

  1. Pricila diz:

    Nunca esquecerei da Polyestirene.

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