Os Deuses já não são jovens mas recomendam-se

Noite de celebração. “Toda a gente sabe” é a tradução do nome do último álbum dos Young Gods e de uma das frases fortes de “Kissing the Sun”, um dos maiores êxitos dos suíços. E toda a gente sabia ao que ia. Noite esgotada sem surpresa. Não chegou à hora e meia, mas foi intenso, hipnótico, explosivo. Como habitual.

Franz Treichler liderou mais um ritual dos "deuses"


O regresso dos Young Gods a Portugal fez-se pela porta grande de duas pequenas salas: o Hard-Club, no Porto (e não em Gaia como incialmente referido), e o Santiago Alquimista, em Lisboa. O concerto alfacinha, com direito a repetição esta noite naquela sala, foi o primeiro com lotação esgotada nesta nova digressão europeia dos suíços, que andam a promover o nono disco de originais, “Everybody Knows”. Foi um regresso muito saudado a Portugal de um projecto que é presença constante nesta ocidental praia lusitana. E que a cada nova vez os “deuses” são sempre muito saudados como se de uma cerimónia rara se tratasse.

Casa lotada para ver Young Gods

Os Young Gods — outrora um trio agora um quarteto com a presença do multi-instrumentista Vincent Hanni — apresentaram no Alquimista uma “setlist” muito baseada no último registo. Apenas “Two to Tango” e “Aux Anges” não foram tocadas de “Everybody Knows”. De resto, abriram logo com quatro novos temas, um deles o envolvente “Mr. Sunshine”. Depois, surgiu “Supersonic”, de “Second Nature” (2000) e a plateia, já de si rendida, elevou os braços e entrou no ritual de dança habitual de Franz Treichler, o vocalista, que mais à frente viria a apresentar-se como “Francisco”. Ficou-lhe bem, é um bom nome.

O concerto dos Young Gods durou perto de hora e meia. Teve dois encores. E talvez tivesse tido um terceiro se o público não tivesse entendido a tranquila “Once again”, também do novo disco, como a despedida da banda após mais uma noite de comunhão lisboeta. Na “setlist”, a que o FrankMarquesBlog teve acesso, haviam pelo menos mais três músicas alinhadas além das 17 que foram interpretadas. Ouviram-se lamentos pela ausência de “Gasoline man”, mas outras mais poderiam ter passado ontem à noite pelo Alquimista. O concerto, no entanto, acabou já um pouco fora de horas dado tratar-se de um domingo à noite e muitos dos presentes tinham de iniciar mais uma semana de trabalho poucas horas depois.

"Gods" e público em perfeita comunhão

Os suíços entraram em palco por volta das 23h30 e saíram pela última vez às 00h48. Deram um concerto intenso, sem necessitar de recorrer aos grandes êxitos da carreira na parte principal do alinhamento. Depois, no primeiro encore, elevaram-se os níveis de energia de toda a gente. Só podia, face à escolha de temas. “Skinflowers”, do álbum “TV Sky” (1992), e o inevitável “Kissing the Sun”, de “Only Heaven” (1995), resultaram numa explosão de ritmo, luz e dança frenética, que não deixou nenhuma alma penada indiferente. Seguiu-se “Freeze”, de “Super Ready/ Fragmenté” (2007), também a puxar pelo físico. E nova saída de palco. Mais uma vez, porém, durou apenas escassos segundos.

Com o público insatisfeito, os Young Gods regressaram com “C’est Quoi c’est ça”, também do disco de há três anos, e terminaram em lume brando com Once Again. O público, talvez já a pensar no trabalho pela manhã, começou a sair, as luzes acenderam-se, os amplificadores apagaram-se e tudo ficou pronto para mais uma dose, esta segunda-feira. Há-de haver muita boa gente que vai voltar esta noite para repetir. Os “jovens” não vão para novos, já contam um quarto de século de carreira. Mas esta “droga”, a que os “deuses” nos servem, ainda é da mais fina qualidade. É da boa!

Mr. Sunshine, um dos novos temas:

Empty V na primeira parte

Primeira parte: Empty V
A primeira parte do concerto dos Young Gods foi entregue aos portugueses Empty V. O projecto de Almada não se fez rogado e atirou-se com unhas e máscaras à tarefa de aquecer a plateia. Praticam um som entre o industrial e o metal, mas o facto de apenas tocarem instrumentais torna-lhes um som um pouco cansativo, que acaba por ter poucas nuances que o façam sobressair a espaços. Parece um carrossel de feira, que nunca arranca de vez e volta sempre a passar no mesmo sítio. Salva-se, contudo, a energia e entrega dos três elementos, que se apresentaram em palco envergando máscaras de gás. Entre o público houve quem os invejasse tal a nuvem de fumo que havia sido disparada para dar ênfase ao jogo de luzes.

SETLIST: Young Gods @ Santiago Alquimista, Lisboa, 30 de Janeiro 2011
1. Sirius Business
2. Blooming
3. Tenter le grillage
4. No land’s man
5. Supersonic
6. About Time
7. Mr. Sunshine
8. Miles away
9. Introducing
10. Everythere
11. I’m the drug
12. Envoye
Encore I
13. Skinflowers
14. Kissing the sun
15. Freeze
Encore II
16. C’est Quoi C’est Ça
17. Once again

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18 respostas a Os Deuses já não são jovens mas recomendam-se

  1. Joaquim E. Oliveira diz:

    Ansioso para ouver o que vou encontrar hoje à nôte no Alquimista-Santiago-Alquimista.

  2. vitor diz:

    Está tudo muito profissional, bem trabalhado, a magia está lá, mas a força e a loucura que os tanto caracteriza não marcou… Soube a pouco.

    • sophiabia diz:

      como sempre young gods sabe-me a pouco….eu concordo com o vitor, mas a força já não é a mesma, a loucura , passa a suave loucura e a malta envelhece…:)….só para dizer que mágico, para mim as allways …foi

    • É o peso dos anos, Vitor. Ainda assim, deram um concerto sem incluir nenhum dos grandes êxitos, os dos anos 90. Nem os temas mais emblemáticos dos anos 80. E foi tudo muito bom. Depois veio o encore, que na mesa de som nem tinha cábula para seguir. SkinFlowers e Kissing the Sun foi como uma “prenda” para os portugueses porque em muitos concertos anteriores desta digressão eles não os têm tocado. Assim como não tem tocado o Gasoline Man. A loucura de que falas penso que é a que pudemos ver e ouvir nos primeiros 15 anos do grupo. Muita coisa mudou. A idade, para mim, é a principal. Mas, como escrevi, ainda se recomendam. É um bom concerto. E a quase metade do preço do que vai custar o concerto da PJ Harvey.

      Obrigado pelo “comment”. Abraços,

      FM

  3. vitor diz:

    Mas ainda à 3 anos fizeram um disco à “velhos tempos”, SuperReady é um disco em minha opinão muito bom, eu não aprecio é o novo. Lembra-me quando lançaram Second Nature, era completamente difrente e eu aceitei logo no meu ouvido. Knock on Wood e Everybody Knows, podem ser umas peças de arte, disso não dúvido, mas na minha maneira de estar na vida não me cativam em nada. É só uma simples opinão.
    Quanto ao passar dos anos, eu acho que “velhitos” são os trapos(lol), eles tem espirito de jovem, eles próprios sabem disso, talvez tenha sido essa a razão de fazerem qualquer coisa tão diferente. O concerto não foi mau, apenas apreciei metade dos temas, os clássicos, os do disco SuperReady, o resto não mexeu comigo. Tenho mesmo muita pena, pois são das minhas bandas favoritas e tenho a certeza da 10 vezes que os vi, esta foi a pior prestação, mas não quero desfazer o trabalho excelente da banda, que em minha ideia são grandes músicos e tem provas dadas. Fica para uma próxima vez. Vitor

    • Compreendo o que dizes. Este “Everybody knows” não é, de facto, um disco fácil. Mistura um pouco de tudo o que eles já fizeram, incluindo a acústica do “Knock on wood”. Mas tem bons temas. Não me canso de destacar o Mr. Sunshine.

      A idade pode ser um fardo, mas o que conta é o espírito e penso que esse eles ainda o mantém jovem. Eu gostei do concerto, muito. Já os tinha visto noutros espaços, incluindo vários festivais, a Aula Magna e o Cinema São Jorge. Este foi um espaço diferente e uma nova experiência. E a posição em que fiquei (por cima deles) ajudou bastante a ter uma opinião favorável do que vi. E espero que da próxima (que os “deuses” te oiçam, Vitor, e eles voltem muito mais vezes) ainda goste mais…

      Abraço,

      FM

      • Marina Costa diz:

        Hard Club – 29.01.2011
        Para meu deleite e dos que encheram o novo HC, tive a honra de ver e privar novamente com os meus amigos Gods.
        Concerto espectacular, (sim, poderia ter sido ainda mais espectacular, com alguns temas mais antigos que considero poderossos e fenomenais) que apesar das quase 2 horas de actuação soube a pouco.
        Até breve meus amigos, espero…é sempre um prazer receber-vos no Porto.
        Só uma correcção, o Hard Club é no Porto e não em Gaia (já foi em bons velhos tempos…)

      • Obrigado Marina e ainda mais pela correcção. Como podes reparar não sou “um homem do Norte”. Tinha ideia que o HC era em Gaia. Pelos vistos já mudou. Tenho de ir ver “ao bibo” que a agenda está a ser muito boa e regular.

        Beijinhos e bom resumo da “cerimónia” de sexta-feira.

  4. Joaquim E. Oliveira diz:

    Vocês falam – e escrevem – como profissionais da música, pá. A minha experiência com estes rapazes-suíços- deuses nunca passou da audição de um hit ou outro ouvido na rádio por acasos. Se os YG passaram por Portugal alguma vez antes destes concertos de ontem e anteontem eu estava a Leste. Nem ouvi falar. Outros mundos, sabem, outras vidas…
    Andando em frente.
    Fui ontem parar aos Young Gods a convite de uma amiga. A primeira coisa que lhe disse quando me lançou o repto foi: “Deixa-me ir ao YouTube para me localizar”. Não fazia ideia do som dos gajos. Primeira opção: “Skin Flowers” (acho que a tocaram no concerto de segunda-feira). Respondi-lhe depois: “São ‘pesaditos’, mas com muita pinta. E disso eu gosto”. Eu próprio comprei os bilhetes.
    Foi também a minha estreia no Santiago Alquimista. E isso ajudou. O espaço físico da sala-plateia remete quase para o ambiente cosy dos pubs irlandeses. Gosto disso, dessa atmosfera pequenina e quentinha a que só falta o letreiro “sê bem-vindo, entra, fica à vontade”.
    Depois foi o que foi. Os YG começaram a entrar-me pelos ouvidos adentro às 22h45 e só acabaram pelas 0h35, com Gasoline Man. Curti, curti como um perdido. Ouvi com delícia os sons de uma banda que me pareceu honesta e fiel a si própria, sem vergonha de explorar os sons com liberdade e sem vergonha da sensação de limite ultrapassado.
    Simples Poderosos Deuses!
    PS.: Despeço-me à beirão: Bem hajam por terem vindo. Aos meus amigos de Alpedrinha (Parra, é para ti) só digo: não os percam por nada hoje na Guarda!
    Um abraço Frank.
    Jakim

  5. Helder Cruz diz:

    Pena que tenha que andar nestas andanças mas por tudo o que foi escrito perdi um grande concerto apenas com a lacuna de Gasoline Men. Deu-me nostalgia de quando os vi no 1º Super Bock Super Rock mas aqui quem lá ia era mesmo para ver os YG o que torna o ambiente mais intimo ! Boa crónica !

  6. Pedro A.O. Nunes diz:

    Revejo-me a 200% nas palavras do Joaquim Oliveira, a única diferença é que o repto foi-me lançado por um amigo e não por uma amiga. Tambem não os conhecia, tive dois dias apenas para me familiarizar com o som (essa parte até foi fácil, eheh) adorei o concerto, foi estrondoso! Tenho andando a remoer uma questão, será que YG não poderiam muito bem tocar noutros palcos, ex.: Opt Alive ou SBSR? Sinceramente acho que tal como eu e o Joaquim, anda meio mundo a passar (ou passou) ao lado desta banda. E é pena…
    Abraços

    • Antes de mais, Pedro, obrigado pelo teu comentário.
      E agora deixa-me tentar explicar porque é que os YG andam a passar agora um pouco ao lado dos grandes festivais. Eu conheci-os na primeira edição do Super Rock, em 1995. Foi um festival fantástico e repleto de grandes surpresos para toda a gente. A começar pelos Morphine, a passar pelos Therapy? e a acabar nos já célebres Faith no More, Jesus & Mary Chain e The Cure. Logo aí fiquei “agarrado” aos YG. Voltei a vê-los um ano depois, em Vilar de Mouros. E depois ainda os vi mais umas quantas vezes em vários palcos. Tornaram-se numa das bandas que vinham cá todos os anos. E às vezes mais do que uma vez. Entretanto, reduziram a frequência das edições e amadureceram o som, tem feito coisas mais experimentais. Como é exemplo o álbum acústico “Knock on the Wood”, que os trouxe há pouco tempo ao Cinema São Jorge, em Lisboa. O mediatismo do grupo baixou um pouco face aos anos 90. E foi até com alguma surpresa que os vi marcar concerto para o Alquimista, uma sala pequena para o “tamanho” deles, na minha opinião. Esgotou sem surpresa. Mas a segunda noite já não foi tão famosa em termos de público. Há um par de anos fui vê-los à Aula Magna, grande concerto, mas também não estava sala cheia. E é por aí, talvez, que os grandes festivais agora não apostam tanto neles. São “pequenos” para um palco grande e demasiado “velha guarda” para um palco pequeno onde a aposta têm sido as novas bandas indie que todos os anos surgem aos magotes.
      Agora posso garantir-te que “meio mundo” não passou ao lado desta banda. É um dos grupos de maior culto em Portugal. Não é tão mediática como outras, não passa tanto na rádio como deveria, mas é grande por estas bandas.

      Abraço

      • Pedro A.O. Nunes diz:

        Antes de mais deixa-me agradecer-te pela explicação…o que referes só confirma que para mim os YG foram uma espécie de “paralelo infinito”, but not so fast, isto porque o que vi na passada segunda-feira, numa sala que também não conhecia fisicamente (sim, a noite foi proveitosa), demonstrou que os “Jovens Deuses” estão alive and kicking e aparentemente para durar.
        Quando afirmas que: ‘São “pequenos” para um palco grande e demasiado “velha guarda” para um palco pequeno onde a aposta têm sido as novas bandas indie que todos os anos surgem aos magotes.’ – entendo o que queres dizer, mas os produtores destes eventos deviam estar novamente de olho nesta banda, não só porque estão com uma sonoridade actual (sem o vanguardismo de outros tempos, diga-se) mas também porque criaram uma mão-cheia de temas talhados para durar toda a vida! Sinceramente, atendendo à “revelação” que foram para mim, revê-los logo que possível faz parte dos meus planos, tenha o palco o tamanho que tiver!
        Abraço

  7. Pedro,
    Acabaste de conhecer os YG agora. Para ti, foram uma espécie de novidade apesar da antiguidade deles. Eu também gostaria de os ver em palcos maiores. Como contei, já os vi no primeiro Super Rock e em Vilar de Mouros a tocar nos respectivos palcos principais, para milhares de pessoas e foram fantásticos. Resultou. E por estes dias também pode resultar num espaço similar. A decisão, infelizmente, não é nossa…

    Abraço

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