Tigerman (en)cantou e no fim encontrou o amor

Duas horas. Um projecto “one-man-band” transformado em salganhada eclética. Pernas provocantes, vozes sensuais, guitarras à desgarrada, baterias alternadas. Soul, blues, rock, country, western, funk. Foi isto e muito mais a estreia de The Legendary Tigerman no palco dos Coliseus, respectivamente, de Porto e Lisboa. Só as cadeiras destoaram…

O início


Começou vinte minutos depois da hora. O relógio marcava 22h20. Acabou já no domingo, madrugada de um dia marcado pelas eleições presidenciais mais desinteressantes e frustrantes das últimas décadas em Portugal. O alinhamento manteve-se inalterado, na mesma ordem, com os mesmos ‘encores’, com algumas piadas repetidas do Porto (sexta-feira) para Lisboa (sábado). Mas, percebeu-se, manteve igualmente a mesma boa onda. E o mesmo bom som, a mesma qualidade. O “homem tigre” de Coimbra está em boa forma e recomenda-se. E agora, tudo indica, vai atirar-se de unhas e dentes ao novo álbum dos Wraygunn.

TigerMan com Asia Argento

A festa dos Coliseus foi sendo alimentada ao longo dos últimos meses por Tigerman, através do Facebook. Rita Braga foi a eleita para as primeiras partes. O arranque do concerto de TigerMan, propriamnente dito,foi concretizado em dueto com Asia Argento, num mix de música ao vivo e vídeo. “My stomach is the most violent of all of Italy”, do brilhante album Femina, lançou a fera para “Walkin downtown”, de Masquerade. Depois, a primeira convidada de carne e osso, voluptuosas curvas e uma voz de prender qualquer ouvido: Lisa Kekaula. As cadeiras, colocadas na plateia de ambos os Coliseus, não se enquadravam. No Porto terá havido alguma confusão quando TigerMan convidou o público a levantar-se e dançar. Em, Lisboa, o músico foi comedido, mas não menos impulsionador. “Make you a mine”, ainda com a voz dos Bellrays, deu preciosa ajuda para a maralha saltar das cadeiras. A senhora canta… e se canta. Mas o menino também toca… e se toca!

O tigre e Lisa Kekaula

O público estava liberto à terceira música e assim se manteve. Apenas dando uso às cadeiras em alguns dos momentos mais calmos da noite. Ao quinto tema surge em cena a loura Claudia Efe, vocalista dos Micro Audio Waves e convidada que ao longo da noite viria a desfilar as suas longas pernas pelo palco em três temas. Um deles uma curiosa versão de Ghost Rider, dos Suicide, que o duo já havia partilhado em 2008, num concerto dos Micro Audio Waves no CCB.

TigerMan e os Dead Combo

“Hey, sister Ray”, o sétimo tema da noite, levou ao palco Rita Red Shoes. A antiga colaboradora de David Fonseca e hoje estrela a voar sozinha na pop nacional cantou ainda “Lonesome Town”, original de Baker Night e igualmente parte integrante de Femina. A esta altura também os Dead Combo, “a banda mais bem vestida do Mundo”, diria TigerMan, brilhavam no palco. E foi com naturalidade que “o melhor duo de Lisboa” tocou “Let me give it to you”, música composta a mielas com o Tigre para Masquerade. A isto juntaram o instrumental Lusitânia Playboys da lavra original de Tó Trips e Pedro Gonçalves, aqui ajudados por Furtado. Um shot do melhor bourbon numa noite de destilação de alto gabarito.

Sem a presença de Maria de Medeiros, TigerMan assumiu a solo as “botas” de Nancy Sinatra e deu eco à letra de Lee Hazelwood. E “tirou a noite” antes de cascar forte e feio na “merda de televisão e rádio que temos” no nosso país. Uma grande verdade, com algumas excepções. Poucas excepções. “Radio & TV blues” assumiu o tom crítico. O público gostou, rejubilou, concordou. Pouco depois, Lisa Kekaula estava de volta ao palco para um dos melhores temas de Femina. A introdução foi a solo pela guitarra de TigerMan. A senhora repondeu à capella com a sua voz portentosa. Juntaram-se num dos muitos momentos sublimes da noite: “The saddest thing to say”. Um momento acentuado pela posterior revisão de “Jockey full of bourbon”, de Tom Waits e com Rita Red Shoes na bateria. Kekaula não saiu em ombros, mas merecia.

Os convidados seguintes foram talvez os mais ilustres da noite. Mick Collins, líder dos míticos Gories e dos impressionantes Dirtbombs, e Jim Diamond, músico e produtor famoso nos meandros do Garage Rock, por exemplo dos primeiros álbuns dos White Stripes. Ambos viajaram de Detroit, Mick para tocar bateria e partilhar vozes num tema, Jim para brilhar no domínio da guitarra e da máquina de fotografar e filmar com que registou uma boa parte dos derradeiros minutos no palco lisboeta. O trio mostrou aos portugueses “Big Black Rusty Pussy Boat” e “Girls”, dois temas raros gravados e lançados em vinil há cerca de dez anos.

O final do concerto deu-se com a presença em palco de dois Dj’s, Nel Assassin e Ride, e do percussionista João Doce, um dos elementos dos Wraygunn. “Say hey hey”, tema de Masquerade, deu lugar a um instrumental apoteótico de mixagens e scratch que deixou o público em êxtase. Pelo meio, TigerMan atirou que aquele quarteto iria formar um experimental novo grupo chamado Quatro, para gravar quatro temas, em quatro dias e dar quatro concertos em outros quatro dias, findo os quais os “Quatro” terminariam. Terá sido brincadeira, mas, a confirmar-se, seria bem interessante.

Primeiro encore

O primeiro encore, poucos minutos depois da meia-noite, voltou a contar com a versão vídeo da actriz Asia Argento. Seguiu-se a presença dos Wraygun para recordar o primeiro single do último álbum, “She’s a GoGo dancer”, e mostrar pela primeira vez em Lisboa uma das novas músicas, “Kerosene honey”, escrita por Raquel Ralha, uma das meninas vocalistas da banda. Saída de palco e regresso para o segundo e derradeiro encore da noite. Um tema, a solo, palco despido, sem fundo, bastidores revelados, o adeus. “True Love will fin you in the end”, original de Daniel Johnston, cantado em Femina por Cibelle, mas assumido pelo Tigre. E ele terá encontrado o amor. O público também, de volta, e alguns terão ido para casa seguir a sugestão do músico…

O derradeiro agradecimento

Alinhamento:
1. My stomach is the most violent of all Italy (c/ Asia Argento via vídeo)
2. Walkin’ down
3. Make you mine (c/ Lisa Kekaula)
4. Naked Blues
5. Honey you’re too much (c/ Claudia Efe)
6. Light me up twice (c/ Claudia Efe)
7. Hey, sister Ray! (c/ Rita Red Shoes)
8. Lonesome town (c/ Rita Red Shoes & Dead Combo)
9. Let me give it to you (c/ Dead Combo)
10. Lusitânia Playboys (Dead Combo c/ Tigerman)
11. Ghost Rider (Suicide c/ Claudia Efe)
12. The boots are made for walkin’ (Lee Hazelwood)
13. I got my night off
14. Radio & TV Blues
15. Bad luck Rhythm ‘n’ Blues machine
16. The saddest thing to say (c/ Lisa Kekaula)
17. Jockey full of Bourbon (Tom Waits c/ Lisa Kekaula e Rita Red Shoes na bateria)
18. Big black rusty pussy boat (c/ Mick Collins na bacteria e Jim Diamond na guitarra)
19. Girls (c/ Mick Collins na bacteria e Jim Diamond na guitarra)
20. Say hey hey (c/ João doce, dos Wraygunn, DJ Nel Assassin e DJ Ride)
21. [Instrumen tal] apoteótico (c/ João doce, dos Wraygunn, DJ Nel Assassin e DJ Ride)

Encore I
22.Life ain’t enough for you (c/Asia Argento via video)
23. She’s a Go Go dancer (Wraygunn)
24. Kerosene honey (Wraygunn)

Encore II
25. True love will find you in the end (Daniel Johnston)

Fim- 00h25

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6 respostas a Tigerman (en)cantou e no fim encontrou o amor

  1. tiago ( eclipserecords ) diz:

    deve ter sido a loucura:) pena nao poder ter ido😦
    excelente reportagem do ”excelente” concerto!!!!
    agora e aguardar Wraygunn ( projecto que adoro igualmente )
    abracooo..e mais uma vez obrigado pelas palavras(BEM DESCRITAS E RELATADAS)
    eclipserecords

    • Foi muito bom de facto. Uma sala cheia, um som bem “montado”, convidados que estiveram à altura do acontecimento e um “homem tigre” com a lição bem estudada, e no pico da forma. E os Wraygunn também prometem. A música nov chama-se “Kerosene honey” e já a podes encontrar no youtube “sacada” deste concerto do Coliseu.

      Obrigado Tiago. Abç!

  2. Sofia Helena Semedo diz:

    Até fiquei com pena de não ir, estive tentada, mas tinha-o visto recentemente no AMAC (sem convidados) e o esquema das cadeiras irrita-me solenemente….em qq dos casos , depois da tua reportagem fiquei com pena…talvez para a próxima, no Super Bock não é????

    • Certinho e direitinho… Super Rock @ Meco, dia 14 de Julho… o mesmo dia de Beirut e Arctic Monkeys.
      E no Coliseu foi de facto diferente para melhor em relação ao AMAC, que já de si havia sido “bueno”

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