| GARAGE ROCK | Mas afinal que “prateleira” de música é esta?

O Barreiro Rocks tem proporcionado ao longo dos tempos a “aterragem” na margem certa do Tejo de alguns dos mais interessantes nomes do rock alternativo internacional. Em Espanha, alguma imprensa, como a webzine Desconcierto, descreve o evento português como “o melhor festival de Garage Rock da Península Ibérica”. Mas que raio de estilo ou sub-estilo é este?

Ty Segall é uma das novas estrelas do apelidado Garage Rock

Ty Segall e Thee Vicars são dois exemplos. Eram os únicos artistas do Barreiro Rocks 2010 que assumiam àquela altura, nos respectivos “myspace”, fazer parte desta “prateleira” do denominado Garage Rock. Mas que etiqueta é esta que em Espanha a “webzine” Desconcierto colocou no festival barreirense, catalogando-o como “o melhor festival de Garage Rock da Península Ibérica”?

Carlos Ramos, director do Barreiro Rocks, não gosta dessa “prateleira” e receia o efeito redutor que pode provocar. João Cruz, o director artístico do evento, desconhece “se os espanhóis têm razão ou não”. “Gallon Drunk, André Williams, The Drones, Atom Rhumba, Speedball Baby e The Flaming Stars [alguns dos nomes que já passaram pelo Barreiro Rocks], por exemplo, não me parece que tenham muito a ver com Garage Rock”, concretiza. Carlos Ramos reforça: “Para mim, é Rock. O Garage é, se calhar, um termo que nos tem permitido ter ao longo dos tempos bandas desde o cariz mais violento e noisy até aos Gallon Drunk ou ao André Williams. Mas, no fundo, é tudo Rock.”

A origem
O conceito Garage Rock, segundo algumas descrições facilmente pesquisadas na internet, nasceu na década de 60 do século passado. Foi o resultado de uma geração mais jovem que pretendia dedicar-se à música e, apesar dos poucos meios, tentar seguir as pisadas, por exemplo, dos Beatles ou dos Rolling Stones. Ganhou um empurrão significativo com a forte imigração de artistas britânicos para os Estados Unidos e Canadá. Ensaiavam com os instrumentos básicos (guitarra, bateria, baixo e voz) e alguins incluíam órgãos. Tudo nas garagens das respectivas famílias. Cantavam sobre as vivências escolares, os amores e tristezas próprias da adolescência. Eram letras, porém, mais agressivas que o habitualmente ouvido nas telefonais da altura. E isso fazia com que fosse um género considerado maldito.

A popularidade cresceu e quando existe procura há sempre quem queira explorar o filão. Em meados dos anos 60, surgiram os primeiros “hits” regionais de Garage nos Estados Unidos e Canadá. Mas a queda foi tão rápida quanto o crescimento. No final da década eram já raros os temas desse género cru e aparentemente amador que se encontravam nas tabelas de vendas. A primeira geração Garage tinha também crescido e a própria exigência da maturidade deixava pouco espaço para a música rebelde.

Iggy Pop lidera os garageiros Stooges com atitude Punk

Detroit manteve-se, porém, com uma cultura Garage viva no arranque da década de 70. MC5 e The Stooges eram alguns do porta-estandartes. Mas também com eles começa a desenvolver-se o conceito Punk. A compilação Nuggets editada em ‘72 por Lenny Kaye manteve o Garage vivo. Mas, em meados de 70, apareceram os Ramones, reforçando um estilo, no qual o termo Punk ganhava maior projeção face ao Garage, mas pouco diferenciava estas duas “prateleiras”.

No arranque dos anos 80, houve mais uma fornada de bandas íntimas do Garage como os Fuzztones ou os The Lyres. Com este “boom” deu-se também o ressurgimento do apelidado surf-rock, muito popular na Califórna no início da década de 60. Ambas as “prateleiras” passaram a ser integradas numa outra, que cada vez ganhava mais força, o chamado Rock Alternativo.

Opinião britânica
“O Garage Rock provém dos anos 60 e, na génese, estão as bandas que tocavam nas respectivas garagens. Mas evoluiu para um género próprio. Mesmo que hoje em dia muitos já não recorram a garagens”, conta ao FrankMarquesBlog Mike Whittaker, vocalista e baixista inglês ex-Thee Vicars, agora nos The Baron Four. Para ele, o Garage “tem um som próprio, cru e único”. “Penso que é injusto chamar-lhe apenas Rock porque pode cair-se no facilitismo de associarmos os artistas de Garage às famosas bandas de Rock e que me dão vontade de vomitar violentamente”, protesta Mike, acrescentando que “algumas pessoas podem relacionar as bandas de Garage com músicos que não sabem tocar muito bem”. “Mas isso não é necessariamente verdade. Penso nos The Remains como uma banda Garage devido ao som que fazem e todos eles sabem tocar esplendidamente”, defende o vocalista dos Thee Vicars.

Mike (ao centro) quer distância das bandas famosas do Rock global


Carlos Ramos, por fim, deixa perceber que o maior receio de falar em Garage Rock está relacionado com a tradução à letra que se faz em Portugal. Muitos dos eventos produzidos partem das autarquias e nem sempre as pessoas que tomam as decisões o fazem corretamente. “Por exemplo, nos Encontros Municipais de Bandas de Garagem tu encontras pessoal do Metal, do Hip-Hop… não deixam de ser bandas de garagem, é verdade, mas não são de Garage. O medo que tive [da conotação dada pelos espanhóis ao Barreiro Rocks] é que se criasse alguma confusão. Até porque este é um festival que sempre trouxe artistas profissionais e de grande qualidade dentro de um estilo de som”, remata aquele que também é conhecido como Nick Nicotine ou, para os amigos mais próximos, o Picos.

Carlos Ramos e João Cruz preferem ter um festival sem "prateleiras"

Verdade seja dita, o festival barreirense é um dos melhores eventos de Garage Rock da Península Ibérica. Mas é, também, acima de tudo, um dos melhores de Rock. Não tem nomes que arrastam multidões, é verdade, mas tem nomes que arrastam quem se interessa por música, gosta de Rock e procura sempre descobrir um pouco mais do que aquilo que as limitadas “playlists” das rádios lhes dão. É esta descoberta que ano após ano acontece no Barreiro. Este ano haverá mais.

Exemplo
Um dos grupos responsáveis pelo crescimento em força do Garage desde os finais dos anos 80 são os The Gories, de Detroit. A banda de Mick Collins, também vocalista dos The Dirtbombs, esteve com um pé na edição de 2010 do Barreiro Rocks (ver link) e o som que fazem reflecte o verdadeiro espírito desta “prateleira” de que gostam tanto os espanhóis, mas também os ingleses, os americanos, os franceses e, claro, os portugueses.

Músicas gratuitas dos The Gories:
(Clica com o botão do lado direito do rato e escolhe “save links as…”)
Thunderbird Esq
Ghostrider
Hey Hey we’re the Gories

Música gratuita de Ty Segall:
Caeser

Mais informação:
Tudo, mas mesmo tudo, sobre o Barreiro Rocks 2010

Thee Vicars: “Monkey mess”

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