| EELS | A “sujidade” de Mr. E é tão bela

Os Eels em momento soturno, escondidos nas luzes

A banda do norte-americano Mark Oliver Everett, Mr. E para os amigos, passou ontem à noite pelo Coliseu de Lisboa, que se apresentou a meio gás de público. A concorrência do Benfica-Sporting (2-0) obrigou ao início atrasado, mas o evento musical foi certamente melhor do que o que foi jogado na Luz. E o povo no Coliseu queria mais

Os Eels deram ontem à noite um belo concerto no regresso a Lisboa quase nove anos depois da passagem pelo Paradise Garage (24 de Novembro de 2001) e dez anos sobre a estreia, no palco da discoteca Lux (24 de Maio de 2000). As surpresas, porém, começaram bem antes do espectáculo que nos levou a gastar os 25 euros do preço do bilhete. Aliás, as surpresas começaram à hora indicada para o início do concerto dos americanos.

Com o dérbi de futebol Benfica-Sporting a disputar-se no Estádio da Luz desde as 20h15 (as águias ganharam por 2-0, bis de Óscar Cardozo), o início do concerto dos Eels foi retardado uma hora, ou seja, para as 22 horas.


O surpreendente ventríloquo e o boneco amestrado

À hora prevista, porém, os que se desligaram do futebol e não quiseram perder pitada do espectáculo no Coliseu de Lisboa foram presenteados pela inusitada actuação de um ventríloquo e o seu companheiro de trapo. Valeu umas boas risadas, mas mais pela surpresa do que pela qualidade desse primeiro acto.

Pelas 21h30, subiu ao palco do Coliseu emmy (assim mesmo, sem maíuscula) Curl, portuguesa nascida há 20 anos em Trás-os-Montes e cujo verdadeiro nome é Catarina Miranda. Um pouco envergonhada, mas também determinada, emmy apresentou-se acompanhada de três guitarras, uma delas certamente “a amiga” sem a qual assume que não seria artista e a que deu o nome de “Artur” – outra seria o “Óscar” de que fala a sua biografia, no site “Kimahera”.

emmy Curl e as amigas "Artur" e "Óscar"

A cantautora transmontana mostrou uma voz delicada e músicas suaves, que marcam a sonoridade do EP Ether já lançado em nome próprio e disponibilizado de forma gratuita na internet. De resto, emmy conta também um tema na colectânea “Fnac Novos Talentos 2010” (“Sealife and it’s waltz”), outro EP de originais pronto a editar pela Optimus e tem também um álbum com edição prevista para o início de 2011. Foi desse universo musical, que começou a “desenhar” aos 11 anos, que emmy Curl preencheu a cerca de meia-hora que lhe foi permitida no aquecimento para os Eels, a quem agradeceu a oportunidade. Para conhecer melhor a transmontana, aqui fica o download legal do EP Ether

Guitarradas após o dérbi
Foi pelas 22 horas, mais ou menos a hora em que terminou o dérbi da Luz, que o Coliseu ficou às escuras e se ouviram os acordes gravados de uma versão orquestral do tema “When you wish upon a star” (música escrita para a versão da Walt Disney de Pinóquio, produzida em 1940). Era o sinal de que Mr. E estava a caminho do palco.

Mr. E entrou sozinho em palco

A entrada aconteceu a solo e serena, mas logo ao segundo tema recebeu a companhia de mais um guitarrista. O ritmo era baixo. O público ainda era pouco, mas bem mais do que estava na sala uma hora antes. As palmas fizeram-se ouvir. Mr. E não correspondeu com grande emoção. A banda foi aumentando e chegou aos cinco elementos, que compõem os Eels na presente digressão.

Todos os músicos se apresentaram em palco de barba, óculos escuros e chapéu. Aliás, todos de chapéu excepto o baterista, Knuckles. O ar sombrio, contudo, sublinhou a sujidade do rock produzido pelo quinteto e reforçado na voz rouca e áspera de Mr. E, que este ano celebrou o 47.º aniversário (nasceu a 10 de Abril de 1963).

O ritmo foi subindo e as luzes procuravam mostrar à banda a resposta do público. Os portugueses, porém, ao contrário do habitual, estavam um pouco presos, talvez pela imagem surpreendente de um concerto há muito esperado ter pouco mais do que meia sala à espera. O som, contudo, era limpo, os instrumentos estavam lá todos definidos, a voz de Mark era clara, permitia ao público cantarolar lado a lado os temas mais conhecidos.

A temperatura subiu na assistência

A presente digressão dos Eels, que deixou a Europa com o espectáculo de Lisboa e prossegue na América do Norte de amanhã até 12 de Outubro, serve acima de tudo para promover a recente trilogia de álbuns, que começou com “Hombre Lobo” (Junho, 2009) e completou-se com a edição de “End Times” (Janeiro, 2010) e “Tomorrow Morning” (Maio, 2010). Mas foi, claro, com os temas mais emblemáticos da carreira com cerca de 15 anos e nove álbuns editados que o público melhor respondeu. Aconteceu assim com as músicas “Dog faced boy”, Souljacker pt. 1″, “Beautiful day” e “I like birds”. Os bónus, que foram as animadas versões de Rolling Stones (“She said yes”) e dos The Lovin’ Spoonfull (Summer in the city”), também colheram frutos.

Três guitarras, um baixo, uma bateria, uma voz áspera... os Eels na Tour 2010

Pouco menos de hora e meia após o início, os Eels despedem-se do público, com Mr. E a deixar os companheiros terminar o tema “Looking up” enquanto se retirou de palco. Mas foi uma falsa retirada. De todos. Escassos minutos após a saída de toda a banda, Mark Everett estava de volta ao palco e pronto para mais dois temas. O fim foi em ritmo baixo e no ar ficou a possibilidade de mais um regresso dos Eels ao palco do Coliseu antes do adeus em 2010. E a expectativa de um segundo encore ainda foi maior devido à frase proferida à saída por Mr. E: “Let’s do this again” (tr.: “Vamos fazer isto outra vez”). Não aconteceu. Fica para uma próxima…

Para alguns dos presentes, o concerto soube a pouco. Esperavam ouvir mais músicas do repertório antigo e não tantas da recente trilogia. Mas, no geral, o concerto teve um travo delicioso, de um rock versátil, tão sujo quanto delicado, tão funk como garageiro, e deu para abanar as ancas. Não lhes ficava mal terem tocado um pouco mais até porque já não vinham a Portugal há nove anos e por cá deram um único concerto contra os dois em Espanha, sábado (Madrid) e sexta-feira (Barcelona). Mas assim também foi bom e a verdade é que deixou vontade de comprar o mais recente álbum, “Tomorrow Morning”. Enquanto me decido, posso deliciar-me com o EP exclusivo disponibilizado gratuitamente pelos Eels num download legal através do myspace.

Para memória futura, fica a setList dos Eels de ontem à noite em Lisboa
Eels, Coliseu de Lisboa, 19 de Setembro de 2010
Grace Kelly Blues
Little Bird
End Times
Prizefighter
She Said Yeah (Rolling Stones)
Gone Man
Summer In The City (The Lovin’ Spoonful)
Tremendous Dynamite
In My Dreams
In My Younger Days
Paradise Blues
Jungle Telegraph
My Beloved Monster
Spectacular Girl
Fresh Blood
Dog Faced Boy
That Look You Give That Guy
Souljacker, Pt 1
Talking ‘Bout Knuckles (cantada pelo baterista)
Beautiful Day
I Like Birds
Summertime (George Gershwin)
Looking Up

Encore
I Like The Way This Is Going
Oh So Lovely

VIDEOS: A estreia dos Eels em Portugal e o regresso dez anos depois
“Novocaine for the soul”, gravado no Lux, a 24 de Maio de 2000

Excerto de “Summer in the city”, original dos The Lovin’ Spoonful, revisto ontem à noite, no Coliseu de Lisboa

Mais informação:
Reportagem do jornal espanhol El País do concerto dos Eels em Madrid, anteontem à noite.

Reportagem do site Festivais.pt e da revista online Blitz do concerto dado ontem à noite pelos Eels, no Coliseu de Lisboa.

Página oficial da digressão dos Eels em 2010, que termina a 12 de Outubro, em Los Angeles, Estados Unidos.

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Uma resposta a | EELS | A “sujidade” de Mr. E é tão bela

  1. sophiabia diz:

    gosto disto🙂

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